A partida de primeira rodada de Naomi Osaka no US Open transcorria com a tensão habitual de um Grand Slam. De repente, o jogo para. A juíza de cadeira, com o microfone aberto, pede que um grupo de espectadores se sente. Não eram fãs exaltados, mas um pequeno time de produtores de conteúdo, com luzes e celulares em punho, gravando ruidosamente sua própria performance em meio a um evento de elite. A cena, capturada e viralizada, tornou-se o emblema de um novo e incômodo pacto cultural no esporte.

O episódio não foi um acidente, mas o resultado de uma estratégia deliberada. A U.S. Tennis Association (USTA), entidade que rege o tênis nos EUA, dobrou sua aposta em influenciadores este ano, credenciando cerca de 100 criadores para o evento — o dobro do ano anterior. A lógica, segundo reportagem da Fast Company, é clara: buscar engajamento e atrair um público que não consome esporte pelos canais tradicionais. A USTA oferece a eles o mesmo acesso que a jornalistas, incluindo a sala de imprensa. O objetivo, nas palavras de um diretor da associação, não é promover a marca US Open, mas “aumentar o interesse pelo tênis como um todo”.

O pacto com o feed

Essa troca — acesso por alcance — é uma aposta que muitas indústrias, da moda ao luxo, já fizeram. No ambiente de alta concentração do esporte profissional, porém, a equação se mostra mais complexa. O silêncio ritualístico do tênis, quebrado apenas pelo som da bola e pelos aplausos nos intervalos, é parte funcional do jogo. Quando a produção de conteúdo se sobrepõe à competição, o conflito é inevitável.

Atletas como Jessica Pegula verbalizaram o incômodo. Embora reconheça o valor promocional, ela classificou a atitude de alguns criadores como “um pouco desrespeitosa”. “As pessoas estão ali embaixo tentando performar, é a carreira e o trabalho delas”, afirmou. A questão central que emerge não é se os influenciadores devem estar lá, mas como. Aparentemente, o convite não veio acompanhado de um manual de etiqueta, deixando no ar a dúvida sobre quem é responsável por educar essa nova classe de espectadores sobre as regras — escritas e não escritas — do jogo.

Um desrespeito performático

Daniil Medvedev, outro jogador de ponta, adotou uma visão mais pragmática, sugerindo que os benefícios da exposição ainda superam os inconvenientes. Sua fala ecoa o dilema das organizações esportivas: em um mercado de atenção fragmentado, pode-se dar ao luxo de ignorar os canais que dominam a cultura digital? A resposta da USTA, por enquanto, é um sonoro “não”.

A controvérsia no US Open expõe a fronteira cada vez mais tênue entre o espectador e o performer. Em um mundo onde cada experiência é passível de ser transformada em conteúdo, o ato de simplesmente assistir a um evento parece obsoleto para uma parcela do público. O desafio para o esporte, e para eventos ao vivo em geral, é como integrar essa nova realidade sem descaracterizar a essência do espetáculo. O jogo dentro da quadra continua o mesmo, mas o jogo do lado de fora mudou para sempre.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fast Company