A indústria de etanol no Brasil, já consolidada em modelos flex que integram cana e milho, caminha para um novo patamar de otimização: a incorporação da pecuária. A proposta, defendida por João Rosa, sócio-diretor da Pecege Consultoria e Projetos, sugere que usinas de etanol passem a incluir o confinamento de bovinos em suas operações. O objetivo é maximizar o aproveitamento dos coprodutos gerados na produção de etanol, especialmente o DDG (grãos secos de destilaria), e diversificar as fontes de receita em um mercado cada vez mais competitivo.
O Ciclo Virtuoso da Integração
A lógica por trás dessa integração reside na sinergia entre as atividades. O etanol de milho, por exemplo, já tem em seus coprodutos uma parcela significativa de sua receita, muitas vezes superando a do próprio biocombustível. Fernando Queiroz, CEO da Minerva Foods, já destacou o papel transformador do etanol de milho para a pecuária, ao fornecer insumos que auxiliam na terminação dos animais. A proposta de Rosa eleva essa conexão, transformando a usina em um polo de produção que abrange desde o biocombustível até a alimentação animal, fechando um ciclo de aproveitamento de recursos.
Vantagens Competitivas e Resiliência
A integração entre cana e milho já confere vantagens importantes, como o aproveitamento do bagaço da cana para geração de energia, reduzindo custos e a dependência de biomassa externa. Empresas como São Martinho e Cargill já operam com plantas flex, demonstrando a viabilidade desse modelo. No entanto, o crescimento projetado para a produção de etanol de milho, que pode mais que dobrar até 2030, impõe desafios bilionários relacionados à oferta de biomassa. A integração com a pecuária surge como uma estratégia para mitigar riscos e fortalecer a resiliência do negócio, permitindo que as usinas naveguem em um cenário de volatilidade de preços e expansão da oferta.
Diversificação e Eficiência Operacional
Werner Roger, CIO da Trígono Capital, reforça a importância da diversificação, classificando usinas de etanol de milho sem integração com a cana como uma potencial "bomba-relógio". A combinação de açúcar, etanol de cana e etanol de milho, em sua visão, otimiza o uso da estrutura industrial ao longo do ano, aproveitando a safra canavieira e ampliando o período de operação dos equipamentos. Adicionar o confinamento a esse modelo representa um passo natural na busca por maior eficiência e novas fontes de receita, aproveitando a infraestrutura existente e minimizando investimentos em comparação a novas plantas (greenfield).
Perguntas em Aberto e o Futuro da Agroindústria
A proposta de integrar pecuária às usinas de etanol abre um leque de possibilidades, mas também levanta questões sobre a gestão dessa complexidade. Será que a logística de transporte de insumos e produtos se tornará um gargalo? Como os reguladores encararão essa diversificação produtiva? A expansão para o confinamento é um movimento estratégico que reflete a busca contínua por otimização e inovação no agronegócio brasileiro, com potencial para redefinir a cadeia produtiva de biocombustíveis e proteína animal. A adoção em larga escala dependerá da capacidade de gestão, da viabilidade econômica e da resposta do mercado a esse modelo integrado. Com reportagem de Brazil Valley
Source · Money Times





