A Vale (VALE3) não está tão barata quanto parece à primeira vista. Essa é a conclusão central de uma nova análise da XP, que manteve sua recomendação neutra para os papéis da gigante da mineração. Segundo o relatório, embora a companhia negocie com um desconto em relação aos seus concorrentes globais, a diferença é menor do que os múltiplos convencionais indicam.
A tese da corretora se apoia em uma metodologia de valuation ajustada. O movimento sugere que a relação entre risco e retorno está bem calibrada nos níveis atuais, com pouca margem para uma reprecificação relevante no curto prazo, mesmo diante de uma tese de longo prazo promissora centrada na transição energética.
A lupa sobre os múltiplos
O cerne da análise da XP está na forma de calcular o valor da companhia. Pela metodologia dos analistas, que ajusta o cálculo para incorporar caixa e passivos semelhantes a dívidas, a Vale negocia a um múltiplo de 5,9 vezes o valor da firma sobre o Ebitda (EV/Ebitda) projetado para 2027. O número se aproxima do múltiplo médio de seus pares globais, de 6,6 vezes, resultando em um desconto de cerca de 10%.
Uma análise mais tradicional, que não faz esses ajustes, mostraria a Vale negociando a 5,1 vezes, o que sugeriria um desconto bem mais atrativo. Para a XP, porém, a abordagem ajustada oferece uma base de comparação mais fiel e revela que o desconto atual está em linha com a média histórica desde o desastre de Brumadinho. A leitura é que o mercado não está ignorando a Vale, mas sim precificando seus passivos e riscos de forma mais sofisticada.
O curto prazo pressionado e a aposta no cobre
A visão de que não há um gatilho óbvio para valorização no curto prazo é reforçada por uma série de ventos contrários. A XP aponta a pressão de fretes mais caros, um real mais forte, despesas atreladas ao petróleo Brent e os pesados investimentos na expansão da divisão de metais básicos como fatores que limitam a geração de caixa. A corretora estima um retorno sobre o fluxo de caixa livre de aproximadamente 6% em 2027, um patamar modesto.
A criação de valor, portanto, fica para o longo prazo, com a Vale Base Metals como protagonista. A XP projeta que a participação da unidade de cobre e níquel na geração de caixa pode saltar dos atuais 10% para uma faixa entre 30% e 50% até 2035. Contudo, parte desse otimismo já parece estar no preço. Na análise de soma das partes, a divisão de metais básicos já embute um múltiplo de 8 vezes o EV/Ebitda, um prêmio considerável sobre as 5 vezes atribuídas ao negócio de minério de ferro.
Com esse cenário, a XP calcula um valor justo para a ação entre R$ 70 e R$ 80, o que justifica a recomendação neutra. A mensagem para o investidor é que a tese de Vale deixou de ser uma simples aposta em minério de ferro barato; tornou-se um jogo de paciência sobre a execução de uma complexa transição para os metais do futuro — uma transição que o mercado já começou a precificar.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · InfoMoney




