A Variational, startup focada em protocolos de derivativos descentralizados, anunciou nesta quarta-feira a conclusão de uma rodada de financiamento Série A de US$ 50 milhões. A operação foi liderada pela Dragonfly Capital, com a participação de investidores estratégicos como Bain Capital Crypto e Coinbase Ventures, consolidando o interesse do mercado em infraestruturas que tentam unir o mundo das finanças descentralizadas (DeFi) aos mercados financeiros tradicionais.

O movimento da empresa reflete uma mudança estrutural na forma como o setor cripto aborda a liquidez. Enquanto muitas plataformas buscam construir ecossistemas isolados, a Variational, baseada nas Ilhas Cayman, propõe um modelo que agrega liquidez de fontes externas, incluindo dealers de finanças tradicionais, em vez de depender apenas de usuários nativos do ecossistema blockchain.

A estratégia de agregação de liquidez

O principal desafio das exchanges descentralizadas, segundo o CEO Lucas Schuermann, é o chamado "problema do início a frio". Em vez de tentar reconstruir a liquidez do zero, a Variational optou por uma abordagem de agregação. A tese é que, ao conectar-se a grandes corretoras e dealers tradicionais, a plataforma consegue oferecer profundidade de mercado comparável a instituições como a CME, reduzindo o abismo de liquidez que ainda separa o mercado cripto do sistema financeiro global.

Essa estratégia coloca a empresa em uma posição distinta no mercado. Embora utilize tecnologias similares às de competidores como a Hyperliquid — incluindo a operação na rede Arbitrum e o uso de vaults de liquidez como o Omni Liquidity Provider (OLP) —, a Variational posiciona seu produto, o app Omni, mais próximo de uma corretora de serviços financeiros (brokerage) do que de uma exchange tradicional de criptoativos.

Mecanismos e incentivos operacionais

O modelo de negócio da Variational baseia-se em oferecer uma interface de trading de derivativos — especificamente futuros perpétuos — com taxas zero. A ideia de Schuermann é que a comparação mais adequada para a sua plataforma não seria com outras exchanges cripto, mas sim com modelos de varejo como o da Robinhood. A empresa argumenta que a infraestrutura de backend é o seu verdadeiro diferencial competitivo, permitindo que ativos do mundo real (RWA), como commodities e petróleo, sejam negociados instantaneamente em um formato de blockchain.

Ao focar em "trazer a liquidez até o usuário" em vez de criar um mercado fechado, a startup tenta contornar as limitações de capital que frequentemente travam a adoção de produtos complexos em blockchains. A aposta é que a integração com provedores tradicionais permita uma eficiência de capital que os modelos de order book puramente descentralizados ainda lutam para alcançar em larga escala.

Implicações para o mercado e stakeholders

A entrada de capital robusto de nomes como Bain Capital e Coinbase indica que o ecossistema de venture capital vê valor na convergência entre finanças tradicionais e infraestrutura descentralizada. Para os reguladores, esse movimento representa uma zona de atenção, dado que a interconexão entre dealers tradicionais e protocolos cripto pode aumentar a complexidade da supervisão financeira e dos riscos sistêmicos.

Para os investidores e usuários, a promessa de uma liquidez mais profunda pode significar spreads menores e maior eficiência na execução de ordens. No entanto, o sucesso dessa integração dependerá da capacidade da empresa em navegar as exigências de conformidade em diferentes jurisdições, à medida que planeja abrir sua plataforma para o público geral após o período inicial de convites.

Perspectivas e incertezas

O futuro da Variational será definido pela sua capacidade de escalar a plataforma Omni e atrair parcerias de liquidez que sejam, de fato, mais eficientes que as soluções atuais. A transição de um ambiente restrito para um modelo aberto será o teste definitivo para a tese de que a liquidez tradicional pode ser harmoniosamente integrada aos trilhos da blockchain.

Ainda resta observar como o mercado reagirá à concorrência crescente no segmento de RWA e se a promessa de um momento "zero-para-um" no trading de ativos reais se concretizará conforme a empresa espera. A trajetória dos fundadores, que já passaram por empreendimentos de trading quantitativo, sugere um foco técnico rigoroso, mas o sucesso final dependerá da adoção em massa pelos usuários de varejo.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fortune