Os líderes das três maiores bandeiras de cartão no Brasil — Mastercard, Visa e Elo — deram um raro vislumbre de seu consenso estratégico durante um evento da Adyen. A visão para o futuro dos pagamentos, segundo eles, não passa pela extinção do plástico, mas por sua profunda reinvenção.

Longe de uma batalha de soma zero contra o PIX, a aposta é em um ecossistema interoperável, onde a segurança será garantida pela biometria, e não mais por senhas. A leitura é que, para sobreviver, o cartão precisa se tornar uma plataforma aberta e mais inteligente, integrando-se às novas realidades do consumidor brasileiro.

O fim da senha

A principal força de transformação no curto prazo, segundo Marcelo Tangioni, presidente da Mastercard Brasil, é a biometria. A meta é ambiciosa: erradicar as senhas até 2030. A tecnologia é vista como a chave para destravar uma experiência de checkout com menos atrito e, crucialmente, reduzir os índices de fraude que tanto oneram o sistema.

O terreno para isso já está preparado. O Brasil, segundo o executivo, já tokeniza 70% de suas transações online, um passo fundamental para desvincular os dados do cartão do processo de pagamento. A biometria seria a camada final de autenticação, tornando a transação mais segura e fluida para o consumidor e mais eficiente para o varejista.

Interoperar ou morrer

A resiliência do cartão, especialmente do crédito com seu “parcelado sem juros” — uma inovação brasileira que o setor defende com unhas e dentes —, não significa inércia. A visão de futuro é de convergência, onde “o PIX conversará com cartões, e os cartões com remessas internacionais”, nas palavras de Tangioni. É o reconhecimento de que o isolamento não é mais uma opção.

Esse pragmatismo contrasta com o ceticismo em relação a outras tecnologias. Giancarlo Greco, CEO da Elo, foi direto ao afirmar que o blockchain foi “superestimado” para pagamentos. A mesma cautela se aplica à inteligência artificial, que, na visão de Rodrico Cury, da Visa, atuará mais como um “assistente de compras” conversacional do que um agente autônomo, com o desafio central sendo a autenticação segura nesse novo ambiente.

O pano de fundo para toda essa movimentação, como ressaltou Cury, é a própria natureza do mercado brasileiro: ultracompetitivo e com uma capacidade ímpar de escalar novidades em alta velocidade. O que se desenha no Brasil, de credenciais flexíveis ao avanço do “Click to Pay”, não é apenas uma resposta local, mas um laboratório para o futuro global dos pagamentos.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · TIInside