A jornada para obter um visto de visitante americano pode ser uma prova de paciência, com os tempos de espera para entrevistas variando de forma surpreendente em diferentes cidades ao redor do mundo. Em setembro de 2026, enquanto alguns sortudos conseguiam agendar suas entrevistas em menos de duas semanas, outros enfrentavam filas que se estendiam por até 21 meses, como em Sydney, na Austrália. Essa disparidade global reflete não apenas a demanda, mas também as capacidades operacionais dos consulados americanos.

O cenário para quem busca um visto B1/B2, destinado a visitas temporárias de negócios e turismo, é um retrato da complexidade diplomática e logística. Sydney, na Austrália, lidera o ranking de espera com 21 meses, seguida de perto por Toronto, no Canadá, com 20 meses. Outras cidades canadenses, como Vancouver (18 meses), Halifax (15 meses) e Ottawa (15 meses), também figuram entre os destinos com maiores tempos de espera. Essa proeminência do Canadá, onde a maioria dos cidadãos não necessita de visto para entrar nos EUA, sugere que muitos dos solicitantes nesses consulados são, na verdade, cidadãos de outras nacionalidades residindo no país, além de estudantes internacionais e trabalhadores estrangeiros.

O Peso da Demanda e a Escassez de Recursos

A escalada nos tempos de espera não é um fenômeno isolado. Dados do Departamento de Estado dos EUA indicam que a espera média global para entrevistas de visto de visitante saltou de 26 dias em 2019 para impressionantes 201 dias em 2025. Esse aumento ocorre mesmo com o processamento de vistos superando os níveis pré-pandemia. A causa principal reside em uma combinação de fatores: a demanda reprimida acumulada durante a pandemia de COVID-19 e uma redução significativa no número de oficiais de visto. Um relatório do U.S. Government Accountability Office (GAO) revelou que o número de oficiais dedicados a vistos de não-imigrantes caiu de 1.342 em 2024 para 904 em 2025, uma diminuição de quase um terço. Essa escassez de pessoal sobrecarrega os consulados restantes, que lutam para atender ao volume crescente de solicitações.

O impacto dessa crise de capacidade é sentido de forma desigual. Enquanto cidades como Sydney e Toronto enfrentam atrasos monumentais, outras localidades oferecem tempos de espera consideravelmente menores. Em contraste com as longas filas, cidades como Perth (Austrália), Auckland (Nova Zelândia), Bangkok (Tailândia) e diversas capitais europeias registram esperas que variam de menos de duas semanas a cerca de um mês e meio. Essa diferença gritante sublinha a natureza localizada dos gargalos no sistema de vistos, onde a capacidade de processamento e o volume de pedidos variam enormemente de um posto consular para outro. O GAO também destacou que, em 2025, oficiais de visto na Índia lidavam com aproximadamente 21.400 solicitações por oficial, em comparação com cerca de 10.100 na China, ilustrando as disparidades na carga de trabalho.

Implicações para Viajantes e Relações Internacionais

As longas esperas para vistos americanos têm implicações profundas para viajantes individuais, famílias e para a economia global. Turistas que planejam férias, estudantes que buscam oportunidades acadêmicas, profissionais em busca de conferências ou oportunidades de negócios, e até mesmo indivíduos com laços familiares nos EUA podem ter seus planos frustrados ou adiados indefinidamente. A incerteza e a demora podem desencorajar viagens, impactando setores como turismo e hospitalidade. Além disso, a dificuldade em obter vistos pode afetar a percepção de abertura e acessibilidade dos Estados Unidos, potencialmente influenciando relações diplomáticas e comerciais.

Para o Brasil, a situação apresenta um quadro misto. Cidades como Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo aparecem na lista de locais com tempos de espera de cerca de um mês, o que é relativamente baixo em comparação com os extremos globais. No entanto, a experiência brasileira não é necessariamente representativa da situação global. A dificuldade em obter vistos em outros países pode ter repercussões indiretas, como o aumento da pressão sobre consulados em países com tempos de espera menores, ou a busca por rotas alternativas e menos convencionais para obter o documento, o que pode envolver riscos adicionais para os solicitantes.

A Luta Contínua por Acesso e Eficiência

A questão central permanece: como o Departamento de Estado dos EUA pretende equilibrar a crescente demanda global por viagens com a capacidade limitada de processamento de vistos? A redução no número de oficiais de visto, embora possivelmente uma medida temporária, criou um legado de atrasos que continuam a desafiar o sistema. A liberação de novos horários de agendamento é uma corrida constante contra o tempo, e a necessidade de processamento administrativo adicional após a entrevista pode estender ainda mais a espera.

Enquanto o mundo aguarda por uma normalização e eficiência no sistema de vistos americanos, a realidade atual é de um labirinto burocrático onde a paciência é, talvez, o recurso mais valioso. A disparidade entre cidades serve como um lembrete constante de que a experiência de cada solicitante é única, moldada por fatores geográficos, logísticos e pela disponibilidade de recursos consulares. O que o futuro reserva para esses tempos de espera, e como a diplomacia americana navegará essa complexa teia de demanda e capacidade, permanece uma questão em aberto, com o potencial de moldar viagens e interações globais nos próximos anos.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Visual Capitalist