Wall Street opera sem uma direção clara, com os investidores de olho fixo na iminente decisão de juros do Federal Reserve, o banco central americano. O mercado se dividiu: enquanto o índice Dow Jones registrava uma leve queda de 0,31%, o S&P 500 subia 0,20% e o Nasdaq, com forte peso de tecnologia, avançava 0,60%, segundo reportagem do Money Times no meio do dia.

A divergência entre os índices captura a tensão central do momento. De um lado, a quase certeza de uma nova alta de 0,25 ponto percentual nos juros, com probabilidade de 92,7% segundo a ferramenta Fed Watch do CME Group. Do outro, uma aposta de que certas tendências seculares, como a inteligência artificial, são fortes o suficiente para superar o aperto monetário.

O Duelo: Juros vs. Crescimento

A principal força que pressiona o mercado é a alta nos rendimentos dos Treasuries, os títulos do governo americano. O rendimento do título de 10 anos atingiu recentemente seu maior nível desde 2007, a 5,041%, um sinal claro de que o custo do capital está subindo. Em teoria, juros mais altos tornam os lucros futuros das empresas — especialmente as de crescimento, como as de tecnologia — menos valiosos no presente, pressionando suas ações.

Contudo, o setor de tecnologia parece, por ora, ignorar a gravidade macroeconômica. Ações de empresas de semicondutores para smartphones, como Skyworks, Qorvo e Qualcomm, operavam em alta. O movimento sugere que o mercado enxerga catalisadores específicos para o setor que se sobrepõem ao cenário de juros. A busca por alternativas à Nvidia no campo da IA e o potencial IPO de US$ 10 bilhões da japonesa Kioxia, fabricante de memórias, reforçam essa tese.

Além da Nvidia, o próximo capítulo da IA

A resiliência do setor de chips sinaliza uma maturação na tese de investimento em inteligência artificial. O foco não está mais restrito aos GPUs da Nvidia, mas se expande para outras partes da cadeia de valor, como as memórias essenciais para o processamento de grandes volumes de dados. A possível abertura de capital da Kioxia nos EUA seria um termômetro poderoso para medir o apetite dos investidores por essa infraestrutura fundamental da IA.

Essa ampliação do escopo de investimento em IA mostra que, embora a decisão do Fed domine as manchetes no curto prazo, o capital continua sendo alocado para o que é percebido como a principal onda de inovação da década. A questão para os gestores é calibrar o timing: o crescimento secular da IA será suficiente para compensar a volatilidade gerada por um ciclo de juros mais longo e restritivo?

O mercado já precificou a alta dos juros. Agora, toda a atenção se volta para o tom do comunicado do Fed e a entrevista coletiva de seu presidente. O que os investidores buscarão não é a decisão em si, mas as pistas sobre os próximos passos — e por quanto tempo a política monetária permanecerá em território contracionista. É essa sinalização que definirá se a teimosia da Nasdaq é um ato de resiliência ou apenas um adiamento do inevitável ajuste.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Money Times