Um vídeo de um minuto do ator e dramaturgo Wallace Shawn, conhecido por seu papel em "A Princesa Prometida", ressurgiu em redes sociais, gerando forte repercussão. Nas imagens, Shawn faz comparações explícitas entre as ações de Israel na Faixa de Gaza e os atos cometidos pelos nazistas contra os judeus durante a Segunda Guerra Mundial. "Os israelenses invadiram o território de outra pessoa, tomaram casas e fizeram muitas das coisas que os nazistas fizeram aos judeus", afirma Shawn, descrevendo as ações como "demoníacas" e "piores" por serem, segundo ele, ostentadas.

A análise de Shawn, que segundo a reportagem provém de uma entrevista de 2025 com a podcaster Katie Halper, surge em um momento de pico na retórica que acusa Israel de "genocídio". Figuras políticas como o congressista Ro Khanna e o senador Bernie Sanders, além de organizações como os Jovens Democratas da América, têm utilizado essa terminologia, que o artigo considera "totalmente infundada". A ascensão dessa acusação, segundo a publicação, reflete uma radicalização da esquerda após os ataques de 7 de outubro de 2023.

O Contexto da Comparação

Wallace Shawn é associado à "Jewish Voice for Peace", organização descrita como anti-sionista, que atribui a violência no conflito à "apartheid e ocupação israelense". O ressurgimento de suas declarações coincide com entrevistas de outras celebridades, como o ator Adam Brody, que também se referiu à situação em Gaza como "genocídio". A publicação aponta que a disposição em classificar a guerra em Gaza como genocídio tem se tornado um "teste de lealdade" para a esquerda nos Estados Unidos, com o objetivo de deslegitimar o Estado de Israel.

O artigo contesta a validade legal e moral da acusação de genocídio contra Israel, citando a ausência de "dolus specialis" – a intenção específica de destruir um grupo, conforme definido em precedentes internacionais como o Tribunal de Ruanda. Argumenta-se que, apesar da retórica de alguns líderes israelenses, o país não demonstrou intenção de exterminar o povo palestino, citando ações como a entrada de tropas terrestres em Gaza, que resultou em centenas de fatalidades israelenses, e a cooperação com a Organização Mundial da Saúde para vacinar crianças palestinas. Críticos, no entanto, acusam Israel de genocídio desde sua fundação em 1948 ou logo após os ataques de outubro.

A Trajetória Política de Shawn

A reportagem explora a trajetória política de Wallace Shawn, descrevendo-o como um "liberal em recuperação" que se distanciou de suas crenças centristas anteriores. Shawn relata ter desenvolvido um profundo ceticismo em relação às "boas intenções" americanas e ao sistema democrático após perceber que os EUA suprimiam movimentos por maior liberdade em outros países para beneficiar sua própria classe privilegiada. Essa "epifania política" ocorreu durante a administração Reagan, e suas visões foram solidificadas por experiências na América Central, onde expressou contentamento em viver na Nicarágua sob o regime Sandinista.

O texto destaca a contradição entre a sensibilidade estética e o "comportamento humano" demonstrados por Shawn em suas obras, como o filme "Meu Jantar com André", e a "brutalidade" de suas posições políticas. Shawn descreve as ações israelenses como motivadas por um "deleite infernal em matar inocentes e bombardear hospitais", rejeitando a noção de um direito israelense à terra ou a possibilidade de divisão territorial. Curiosamente, sua oposição a estados baseados em etnias parece abrir uma exceção para os palestinos, cujo direito à autodeterminação ele apoia. O artigo sugere que a comparação de Israel com nazistas abre caminho para justificar, pelo menos parcialmente, os ataques de 7 de outubro, ao afirmar que "não vieram do nada".

Empatia Seletiva e o Ressurgimento do Anti-semitismo

A análise aponta uma "miopia moral" em Shawn e Halper, cuja empatia parece não se estender aos israelenses. Halper admite ter "muito ódio no coração", justificado pelo amor às vítimas da opressão. O artigo critica a tendência de alguns setores da esquerda de culpar outros judeus, e não antissemitas, pela ascensão do anti-semitismo. Shawn expressa o desejo de que Netanyahu e os israelenses não sejam associados a judeus como ele e Halper, uma posição que, segundo o autor, remonta a uma visão de judeus como vítimas, preferível do ponto de vista moral para alguns, antes da criação de Israel.

Shawn admitiu em 2009 achar "aterrorizante que os judeus sejam vistos como vitimizadores autoconfiantes". O texto sugere que, embora Shawn tenha o direito de expressar "auto-ódio", outros judeus não deveriam se subordinar a essa visão. O ressurgimento de suas declarações ocorre em um contexto de "anti-semitismo florescente" nos Estados Unidos, indicando que tais calúnias se tornaram rotineiras e que o conhecimento histórico se depreciou, sendo proferidas com a mesma leveza com que se pede um item em um cardápio.

O debate em torno das declarações de Wallace Shawn evidencia a complexidade e a polarização das discussões sobre o conflito israelense-palestino. A comparação com o nazismo, especialmente quando feita de forma categórica e sem nuance, levanta questões sobre o uso de analogias históricas extremas e o impacto na percepção pública. A forma como essas acusações são lançadas, muitas vezes sem a devida ponderação ou base factual, reflete um cenário de crescente radicalização e intolerância, onde a empatia parece ser seletiva e o discurso se torna cada vez mais maniqueísta.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · The Atlantic — Ideas