Um novo livro do acadêmico Alan Coffee, Wollstonecraft: Independent Woman, propõe uma tese ambiciosa: unificar todo o pensamento e a vida de Mary Wollstonecraft, a intelectual britânica do século 18 considerada a mãe do feminismo, sob um único conceito: a independência. A obra, objeto de uma análise aprofundada da filósofa Martina Reuter na publicação Notre Dame Philosophical Reviews, serve como um termômetro para o status de Wollstonecraft no pensamento contemporâneo.

A leitura é que, apesar de ser uma figura histórica e política incontornável, sua plena aceitação no cânone estrito da filosofia ainda é um projeto em construção. O livro de Coffee, ao mesmo tempo que oferece a mais coesa síntese de seu legado, inadvertidamente ilumina os degraus que ainda faltam para que Wollstonecraft transcenda a teoria política e seja lida com o mesmo rigor epistemológico e metafísico que seus contemporâneos masculinos.

A Independência como Bússola

O argumento central de Coffee é que a busca pela "independência" — entendida no sentido republicano de liberdade da dominação e do poder arbitrário de outros — é a chave mestra para decifrar não apenas os escritos de Wollstonecraft, mas sua própria biografia. Em uma inversão metodológica notável, Coffee não usa a vida tumultuada da autora para explicar sua filosofia; ele usa a filosofia para explicar suas escolhas de vida. Sua carreira como escritora, tradutora, resenhista e até mesmo suas viagens são interpretadas como manifestações de um projeto filosófico consciente.

Essa abordagem, que se apoia em trabalhos anteriores de acadêmicas como Lena Halldenius, ganha força pela maneira como Coffee vasculha todo o corpo de trabalho de Wollstonecraft, incluindo sua vasta correspondência pessoal. Ele demonstra, por exemplo, como cartas a amigos e familiares revelam a formulação de suas ideias sobre a base religiosa da independência anos antes de sua publicação. O resultado é um retrato vívido e unificado, que confere uma lógica interna a uma trajetória muitas vezes vista como errática. A independência deixa de ser um mero tema político para se tornar uma bússola existencial e intelectual.

Da Teoria Política à Prova Filosófica

É justamente na transição da teoria política para a filosofia pura que a obra, segundo a crítica, encontra seus limites. Reuter aponta que, embora o livro seja uma contribuição robusta para o estudo do pensamento político, ele hesita em se aprofundar na análise filosófica dos próprios conceitos que apresenta. Coffee descreve brilhantemente a centralidade da independência no sistema de Wollstonecraft, mas não "testa seus argumentos" nem avança a discussão sobre o conceito em si de forma a adicionar uma camada nova ao que já foi estabelecido por outros estudiosos.

A crítica mais incisiva reside no que é visto como uma negligência de áreas filosóficas cruciais, como a epistemologia. Coffee chega a afirmar que o debate sobre as influências de Wollstonecraft — se mais empirista ou racionalista — "pouco importa" para sua filosofia moral e política. Para Reuter, essa é uma oportunidade perdida. A inclusão definitiva de pensadoras como Wollstonecraft no cânone, ao lado de nomes como Émilie du Châtelet ou Margaret Cavendish, depende não apenas de valorizar seus campos de atuação (como a filosofia da educação), mas também de demonstrar como elas se engajaram com as questões centrais da disciplina, incluindo a natureza do conhecimento e a estrutura da razão.

O esforço para consolidar o lugar de Mary Wollstonecraft na história da filosofia avança, e livros como o de Coffee são essenciais nesse processo, ao oferecerem uma porta de entrada coesa e academicamente rigorosa. Eles cumprem o papel de trazer a pensadora para o centro do debate. Contudo, o trabalho de dissecar e testar seus argumentos, de conectá-la às grandes conversas filosóficas de seu tempo para além da política, permanece em aberto. A independência de Wollstonecraft como mulher e intelectual é inquestionável; a validação de sua obra como filosofia, em seu sentido mais amplo, ainda aguarda seus próximos capítulos.

Source · Notre Dame Philosophical Reviews