A implementação de agentes de IA nas organizações enfrenta um gargalo que vai muito além da capacidade dos modelos de linguagem: a infraestrutura de dados. Segundo Niels Zeilemaker, CTO global da Xebia, o sucesso de soluções autônomas depende diretamente da qualidade da fundação de dados, que deve estar pronta para o consumo automatizado. Sem uma base robusta, o agente pode interpretar informações de maneira errônea ou cruzar campos de dados incompatíveis, gerando falhas operacionais que não são atribuíveis ao modelo, mas sim à desorganização da estrutura interna.
Para a Xebia, essa transformação exige uma mudança na forma como as empresas catalogam seus ativos informacionais. Em um ambiente humano, a ambiguidade é resolvida por meio de comunicações informais, mas os agentes carecem dessa flexibilidade. A precisão do catálogo de dados torna-se, portanto, a única fonte de verdade para o funcionamento dessas ferramentas, exigindo rigor técnico que muitas companhias ainda não possuem.
A necessidade de uma base de dados pronta para agentes
O conceito de Agentic Data Foundation (ADF) proposto pela consultoria busca estender plataformas de dados tradicionais para que suportem a operação de agentes. O objetivo é reduzir ciclos de migração de sistemas legados que, tradicionalmente, levavam até dois anos, comprimindo esse cronograma através de uma abordagem orientada a marcos contratuais e engenharia especializada. A estratégia visa integrar o contexto fornecido pelo LLM diretamente na plataforma de dados, acelerando a migração enquanto se mantém a integridade das informações.
Essa abordagem responde a uma demanda crescente por migrações mais rápidas e confiáveis. Ao contrário das tentativas iniciais de automação, que muitas vezes careciam de governança, a metodologia da Xebia foca em criar um ambiente onde o agente não apenas acesse os dados, mas compreenda a hierarquia e as restrições de cada conjunto, mitigando riscos de alucinação ou erros de processamento em larga escala.
Governança no ciclo de vida de software
Outro pilar da estratégia da empresa é o framework Xebia ACE, que busca integrar IA em todo o ciclo de vida de desenvolvimento de software (SDLC). A proposta promete reduções de até 70% nos custos de transformação de legados e aumentos de 40% na velocidade de entrega. O diferencial, segundo Zeilemaker, é permitir que grandes empresas adotem a aceleração via IA sem abdicar de suas estruturas de governança e padrões de qualidade estabelecidos anteriormente.
O desafio central aqui é o equilíbrio entre a agilidade do chamado "vibe coding" — onde a criação de aplicações é democratizada — e a segurança necessária para ambientes de produção. A consultoria defende que a automação não deve substituir o controle de qualidade, mas sim atuar como um revisor sênior, capaz de analisar pull requests e identificar vulnerabilidades antes que o código seja efetivamente implantado.
Implicações para o ecossistema de desenvolvimento
A crescente adoção de ferramentas de revisão baseadas em IA, como as iniciativas recentes da Anthropic, sinaliza uma mudança estrutural na forma como o software será entregue. Para as organizações, o impacto é duplo: a necessidade de investir em talentos que saibam orquestrar esses agentes e a exigência de uma governança de dados que permita a coexistência de sistemas legados com novas arquiteturas inteligentes. A automação, neste cenário, não é um fim, mas um meio para otimizar processos complexos.
Para o mercado brasileiro, que lida com um grande volume de sistemas legados no setor financeiro e de varejo, a lição é clara: a IA não resolve problemas de governança, ela os escala. A preparação do terreno, através de catálogos de dados bem definidos e frameworks de engenharia, é o passo que separa empresas que apenas testam a tecnologia daquelas que conseguem extrair valor real em produção.
O futuro da orquestração de agentes
O que permanece incerto é a velocidade com que as grandes corporações conseguirão adaptar suas culturas internas para confiar em agentes autônomos. A transição exige uma mudança de mentalidade, onde o controle humano passa a ser exercido sobre o processo de governança, e não mais sobre cada linha de código individualmente.
Os próximos meses devem revelar se frameworks como o Xebia ACE conseguirão se tornar padrões de mercado para grandes enterprises. A capacidade de integrar segurança, governança e produtividade será o principal diferencial competitivo para consultorias que buscam liderar a próxima onda da transformação digital baseada em agentes.
Com reportagem de Brazil Valley
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