A fotógrafa uruguaia Ximena Borrazás tem dedicado seu trabalho recente a documentar as cicatrizes físicas e psicológicas deixadas pela violência sexual em zonas de conflito, com foco específico nas regiões de Tigray, na Etiópia, e na Ucrânia. Em um esforço para romper o silêncio que cerca esses crimes, Borrazás combina o retrato documental com o registro técnico de exames médicos, transformando evidências clínicas em ferramentas de denúncia internacional e memória histórica.
O trabalho, intitulado 'The Scars of the War', surgiu após a fotógrafa perceber que a narrativa tradicional dos conflitos frequentemente negligenciava o uso sistemático da violência sexual como arma de guerra. Segundo reportagem da 1854 Photography, Borrazás transita entre o papel de observadora e o de guardiã de testemunhos, buscando não apenas o registro estético, mas a preservação de provas que possam, eventualmente, subsidiar processos judiciais por crimes contra a humanidade.
A fotografia como evidência clínica
O diferencial metodológico de Borrazás reside na incorporação de exames de raio-x no corpo de sua obra. Em Tigray, a fotógrafa documentou a remoção de objetos estranhos — como parafusos e cortadores de unha — inseridos deliberadamente nos úteros de sobreviventes com o intuito de causar infertilidade permanente. A escolha pelo registro radiográfico é uma resposta estratégica à negação institucional enfrentada pela fotógrafa no início de suas pesquisas.
Ao publicar imagens que revelam a anatomia interna sem os marcadores de identidade, Borrazás conseguiu contornar preconceitos que muitas vezes invalidam relatos de vítimas em zonas de conflito. O raio-x, em sua natureza monocromática e técnica, despoja a imagem de variáveis como etnia ou religião, focando a atenção do espectador na violência bruta e irrefutável do ato. Esse método permitiu que o projeto ganhasse relevância em veículos de alcance global, gerando uma resposta de apoio internacional que as fotografias convencionais não haviam alcançado anteriormente.
O impacto das dinâmicas de gênero
Enquanto em Tigray a violência documentada é majoritariamente contra mulheres, a experiência de Borrazás na Ucrânia revelou uma camada adicional de invisibilidade: a violência sexual contra homens. A fotógrafa aponta a ausência de infraestrutura médica adequada para o tratamento dessas vítimas, que frequentemente encontram sistemas de saúde despreparados para lidar com abusos sexuais masculinos. A falta de registros médicos formais para esses sobreviventes dificulta ainda mais a busca por justiça e reparação.
O projeto também destaca a resiliência das vítimas que, na Ucrânia, têm optado por quebrar o tabu de forma pública. Alguns sobreviventes, ao contrário do que ocorre em outros contextos de conflito, permitem que seus rostos sejam fotografados, entendendo que a visibilidade é um passo necessário para romper o ciclo de silêncio e pressionar por mudanças nas políticas de saúde e segurança internacional. Essa postura reflete uma mudança na forma como as vítimas percebem seu papel no pós-guerra.
Desafios e implicações para a justiça
As implicações do trabalho de Borrazás estendem-se para além do campo da fotografia documental, tocando em questões sensíveis de direitos humanos e direito internacional. A coleta de depoimentos e a documentação fotográfica servem como um arquivo de evidências, embora o caminho para a responsabilização dos autores dos crimes permaneça complexo e incerto. A fotógrafa mantém a esperança de que seu material possa ser utilizado em tribunais de justiça, contribuindo para o combate à impunidade que historicamente acompanha esses crimes.
O engajamento de organizações internacionais e o interesse do público em projetos desta natureza indicam que há uma demanda crescente por jornalismo de profundidade que não apenas relate o conflito, mas que documente as violações cometidas contra indivíduos vulneráveis. A transição da fotografia como arte para a fotografia como registro forense coloca o trabalho de Borrazás no centro do debate sobre o papel da imagem em contextos de guerra.
O futuro do registro documental
O que permanece incerto é a capacidade das instituições globais de transformar esse acervo de evidências em políticas concretas de proteção e justiça. A expansão do projeto para outras regiões, como a Síria e o Iraque, sugere uma tentativa de mapear a universalidade da violência sexual em zonas de conflito, reforçando a necessidade de uma abordagem mais robusta por parte de organismos de saúde e segurança internacional.
O trabalho de Ximena Borrazás continuará a ser observado por sua capacidade de unir técnica fotográfica e rigor documental em cenários onde a verdade é frequentemente obscurecida pela negação e pelo trauma. A continuidade dessa jornada depende da colaboração com sobreviventes que, apesar da dor, buscam na exposição de suas cicatrizes uma forma de atestar a própria existência diante da tentativa de apagamento imposta pela guerra.
Com reportagem de Brazil Valley





