A palavra "yakuza", hoje sinônimo global de gangster japonês, carrega uma história de origem irônica e pouco conhecida. Longe de ser um título de honra ou um termo antigo para organizações criminosas, "yakuza" nasceu como uma gíria auto-depreciativa entre apostadores no Japão, um reflexo da própria natureza arriscada e marginal de suas vidas.
O termo tem suas raízes no teatro Kabuki e na ficção popular, onde era usado para descrever um personagem arquetípico: o "yakuza-mono". Este era um pária, um andarilho que vivia à margem da sociedade, sustentando-se nas mesas de jogo. O significado literal da palavra, próximo a "um inútil" ou "um mau", era adotado com ironia pelos próprios jogadores. Eles se autodenominavam "inúteis" ou "ruins", um título auto-zombaria para homens que dependiam de astúcia e risco para sobreviver, enquanto se viam como desprovidos de valor.
Essa gíria permaneceu associada a apostadores até o início do século XX. Foi apenas nesse período que o termo começou a se consolidar como um sinônimo direto para "gangster". A capitalização da palavra e sua disseminação mundial, no entanto, foram em grande parte obra da imprensa americana no Japão pós-Segunda Guerra Mundial. Jornalistas, buscando um rótulo impactante e comparável a outros termos como "a Máfia", optaram por "o Yakuza". Essa escolha, embora eficaz para fins jornalísticos, acabou por impor um nome aos criminosos que eles próprios não haviam escolhido para descrever suas vidas.
Assim, os gangsters japoneses passaram a carregar um rótulo com uma história que não se alinhava com sua autopercepção ou origem. A cultura que se desenvolveu em torno deles, com seus rituais, códigos e estética — incluindo as famosas tatuagens, que despertaram o interesse do autor do livro resenhado —, cresceu sob um nome cujas raízes eram de autossacrifício e ironia, e não de poder ou intimidação.
Com reportagem de Brazil Valley
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