O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelenskyy, anunciou a intenção de transformar o vazio deixado por um antigo monumento a Vladimir Lenin em Kiev em um espaço dedicado a Ivan Mazepa, líder cossaco do século XVII. O pedestal, localizado no cruzamento de duas vias centrais da capital, permanece desocupado desde dezembro de 2013, quando manifestantes derrubaram a estátua de Lenin durante a Revolução da Dignidade, conhecida como Euromaidan.

A proposta foi formalizada durante as celebrações do Dia da Constituição da Ucrânia, realizadas no complexo monástico Kyiv-Pechersk Lavra. Zelenskyy revelou um busto menor de Mazepa e defendeu que o herói nacional merece uma representação em escala monumental na capital, marcando um passo simbólico definitivo na remoção de vestígios da influência russa na paisagem urbana ucraniana.

O simbolismo da arte pública na Ucrânia

A dessovietização da Ucrânia é um processo que ganhou contornos institucionais rigorosos após 2014, resultando na proibição de símbolos soviéticos em todo o território nacional. A trajetória do monumento a Lenin em Kiev, que permaneceu no local por quase 60 anos até sua queda, ilustra a tensão entre a memória imposta pelo regime anterior e a construção de uma identidade nacional independente. Em 1991, o país contava com cerca de 5.500 estátuas de Lenin; em 2017, o governo já havia reportado a remoção integral desses marcos.

A escolha de Ivan Mazepa como sucessor visual no espaço público não é aleatória. Mazepa, que governou o estado cossaco entre 1687 e 1709, foi historicamente retratado pela historiografia russa como um traidor. Ao elevar a figura de Mazepa, o governo de Zelenskyy busca confrontar diretamente a narrativa externa que, segundo o presidente, tentou por séculos moldar a visão dos ucranianos sobre sua própria história.

A reescrita da identidade nacional

A dinâmica política por trás da substituição de monumentos revela como a arte pública atua como uma ferramenta de legitimação estatal. Ao ocupar um pedestal que carregava o peso ideológico do comunismo soviético com a imagem de um líder cossaco, o Estado ucraniano executa um movimento de inversão simbólica. Para o governo, a presença de Mazepa no centro de Kiev serve para consolidar a ideia de que a soberania ucraniana possui raízes profundas que antecedem a era soviética.

O uso de monumentos para contestar a influência russa reflete uma estratégia de longo prazo. A decisão de Zelenskyy de discursar no Kyiv-Pechersk Lavra, um local historicamente patronizado por Mazepa, reforça a conexão entre a autoridade atual e a linhagem de figuras que, no passado, desafiaram a hegemonia de Moscou. É uma tentativa de consolidar uma memória coletiva que rejeita a visão imperialista russa sobre o território e a cultura do país.

Tensões e perspectivas futuras

A substituição levanta questões sobre como o espaço urbano deve refletir as divisões históricas de um país em conflito. Enquanto o governo vê a medida como um ato de restauração da dignidade nacional, o debate sobre a ocupação de espaços públicos continua sendo um ponto de fricção política. A escolha de figuras históricas controversas ou polarizadoras pode gerar diferentes recepções internas, dependendo de como as diversas regiões do país processam a sua própria herança cultural.

O futuro desta intervenção urbana dependerá da capacidade do governo em transformar o monumento em um símbolo de união, em vez de apenas uma resposta a um passado indesejado. A observação dos próximos passos — desde o projeto arquitetônico até a recepção popular — será essencial para entender como a Ucrânia continuará a equilibrar a reconstrução de sua identidade com as pressões do cenário geopolítico atual.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · ARTnews