No debate sobre o futuro da inovação, a perspectiva de que a tecnologia é a única protagonista tem sido desafiada. Lucía Sarraceno, Diretora de Marketing & Clientes e líder de Inovação da Zurich, apresentou um argumento robusto em favor de uma abordagem mais holística. Em sua participação no TI Inside Innovation Fórum, Sarraceno defendeu que o motor da inovação deve ser, primordialmente, a área de negócios e a liderança da companhia, com a tecnologia atuando como um facilitador, e não como ponto de partida. Para ela, a mera aplicação de ferramentas tecnológicas a processos existentes não configura inovação. A tecnologia é o "como", enquanto a inovação é o "o quê" se faz com ela.
O motor da inovação: negócios e pessoas
A executiva enfatizou que o processo de inovar é intrinsecamente complexo, demandando uma combinação de competências, a superação de barreiras burocráticas e, crucialmente, paciência para que o valor seja efetivamente gerado. Sarraceno alertou que soluções tecnológicas, por sua natureza, podem ser facilmente replicadas pela concorrência. O diferencial competitivo duradouro, segundo ela, reside na reestruturação dos ecossistemas e dos processos de distribuição que são construídos em torno da tecnologia. A inovação, portanto, não deve ser uma iniciativa isolada da equipe de tecnologia, mas sim uma colaboração estreita entre as áreas de negócio e a tecnologia. Líderes de negócio identificam as dores e os problemas, e a TI, por sua vez, avalia quais soluções tecnológicas são mais adequadas para endereçar essas questões e gerar impacto. "No fim das contas, tudo passa pelo o quanto mais você vai vender, o quanto os nossos stakeholders vão se beneficiar e o quanto o cliente ficará mais satisfeito", resumiu.
Visão de longo prazo e a cultura como diferencial
Outro ponto crucial levantado por Sarraceno foi a necessidade de as empresas adotarem uma visão de longo prazo em suas estratégias de inovação, em detrimento da busca por benefícios imediatos de curto prazo. Ela exemplificou essa dificuldade ao notar que menos de 5% das empresas, segundo sua percepção, atingem um retorno sobre o investimento (ROI) com inteligência artificial. A implementação de testes em ambientes controlados pode ser relativamente simples, mas a transposição dessas soluções para a operação real frequentemente expõe gargalos inesperados, como custos unitários elevados e desafios de suporte. "As empresas precisam focar no valor de longo prazo antes de iniciar novos testes", aconselhou.
Capacitação e mindset: a base da inovação
Para Sarraceno, o passo mais significativo para o sucesso da inovação é o investimento na capacitação das pessoas e na adaptação da cultura organizacional. Ela destacou a importância de um modelo de implementação híbrido, que combine o apoio "top-down" (da alta liderança) com o "bottom-up" (das equipes operacionais), visando formar multiplicadores internos em governança de dados e no uso consciente das ferramentas tecnológicas. "A cultura é o mais importante. Se não há cultura, ela mata a empresa", afirmou com veemência. Em um cenário ideal, a executiva vislumbra um futuro onde as equipes de inovação não precisariam existir como entidades separadas, pois a inovação seria parte integrante e natural do dia a dia de todos os setores da empresa. Para isso, as companhias devem priorizar o cultivo de uma cultura e um "mindset" que incentivem e viabilizem a inovação de forma sustentável, evitando "dar passos maiores do que as pernas".
Com reportagem de Brazil Valley
Source · TIInside





