“O presente é deles; o futuro, pelo qual realmente trabalhei, é meu.” A frase, atribuída a Nikola Tesla, não é um lamento, mas um manifesto de convicção. É a declaração de um arquiteto do amanhã, consciente de que sua obra mais importante não seria compreendida ou capitalizada no tempo corrente, dominado por interesses e lógicas mais imediatas. É a aposta radical de que a relevância histórica supera o sucesso comercial instantâneo.
Tesla, o engenheiro e físico sérvio-americano cujas invenções no final do século XIX e início do século XX moldaram o mundo elétrico moderno, viveu essa dicotomia em sua rivalidade com Thomas Edison. Na chamada “Guerra das Correntes”, Edison defendia a corrente contínua (DC), um sistema que já possuía infraestrutura e apoio financeiro — o “presente”. Tesla, com sua corrente alternada (AC), propunha um modelo tecnicamente superior para a transmissão de energia a longas distâncias, mas comercialmente frágil e disruptivo demais para a ordem estabelecida. Edison ganhou as batalhas da propaganda e do mercado imediato, mas foi o futuro de Tesla, o sistema AC, que se tornou o padrão global que ilumina nossas cidades até hoje.
A tensão entre o pragmatismo lucrativo e a visão fundacional não é uma relíquia da Era da Eletricidade. Ela se desenrola, em tempo real, no epicentro da inovação contemporânea: a inteligência artificial. O “presente” da IA pertence às empresas que dominam os grandes modelos de linguagem (LLMs) e as aplicações de IA generativa. Seus produtos, de chatbots a criadores de imagem, capturam a imaginação do público e trilhões em valor de mercado. Eles otimizam, empacotam e vendem uma arquitetura de IA que, embora poderosa, já é conhecida.
No entanto, o “futuro” da IA está sendo trabalhado em silêncio, nos laboratórios de universidades, em institutos de pesquisa e por teóricos independentes que, como Tesla, se dedicam a problemas menos glamorosos. Eles não estão criando o próximo aplicativo viral, mas investigando arquiteturas neurais radicalmente novas, explorando os fundamentos da segurança e do alinhamento da IA, ou desenvolvendo hardware neuromórfico. Seu trabalho não gerará receita no próximo trimestre, mas pode, em uma década, tornar o paradigma atual obsoleto. São eles que questionam se os LLMs são o ponto final ou apenas o sistema DC da nossa era, à espera de sua corrente alternada.
O legado de Tesla, portanto, é um alerta para o ecossistema de inovação. A métrica do sucesso não pode ser apenas a velocidade de monetização ou a conquista de market share. O verdadeiro avanço, aquele que reconfigura a sociedade, muitas vezes germina nas margens, incompreendido pelo presente que busca otimizar, e não reinventar. Reconhecer e apoiar os que trabalham pelo futuro — mesmo quando seu presente parece incerto — é a única forma de garantir que ele, de fato, nos pertença.


