A transição da robótica de um problema de engenharia mecânica para um desafio de inteligência artificial aplicada ganha contornos industriais na Figure. Em vídeo publicado no canal Brazil Valley | Robotics em 1 de maio de 2026, a companhia detalha a operação de seu campus, que abriga cerca de 500 funcionários globais e centenas de robôs. O foco operacional da empresa deixou de ser a mera estabilidade bípede para focar na execução de tarefas gerais contínuas, rodando de forma autônoma 24 horas por dia. O executivo da companhia, que liderou anteriormente a empresa de aviação Archer, argumenta que o hardware atual do modelo Figure 3 já atingiu robustez suficiente para suportar operações ininterruptas. O gargalo atual, segundo a empresa, deslocou-se quase integralmente para a estabilidade do software e a coleta massiva de dados de interação com o mundo físico.
A arquitetura Helix e o abandono do C++
A mudança técnica mais substancial relatada pela Figure ocorreu há cerca de um ano, quando a empresa abandonou centenas de milhares de linhas de código C++ em favor de redes neurais puras. O executivo explica que a complexidade matemática de controlar 40 motores capazes de girar 360 graus gera mais posições corporais possíveis do que átomos no universo. Tentar programar reações para cada cenário tornou-se insustentável.
A solução adotada foi o Helix, um modelo de visão, linguagem e ação treinado com pouco menos de um milhão de horas de dados. O sistema roda localmente em GPUs no torso do robô, processando pixels das câmeras e determinando a posição de cada junta entre 50 e 200 vezes por segundo, sem necessidade de conexão com a internet. O treinamento ocorre em simulação baseada em física, com transferência direta para o hardware real.
Essa arquitetura permitiu o desenvolvimento de iniciativas como o projeto Vulcan, focado na redundância do sistema. O executivo demonstrou como o robô consegue travar a articulação e continuar operando ou se retirar de cena mesmo após perder a comunicação e a energia de um joelho esquerdo. A diretriz interna da empresa é tolerância zero a quedas, tratando a falha de atuadores inferiores como um evento contornável pelo software de controle.
Verticalização física e o caminho para a AGI
Para sustentar a frota, a Figure opera uma instalação de manufatura própria apelidada de Bot Q, onde produz cabeças, braços, pernas e o pacote estrutural de baterias de 2.25 quilowatts-hora. A bateria foi projetada internamente com sistemas de contenção para evitar a propagação de fugas térmicas. O executivo afirma que o controle estrito da cadeia de suprimentos mitiga riscos de roubo de propriedade intelectual e acelera as iterações de hardware.
Para contexto, a BrazilValley aponta que a estratégia de verticalização extrema em estágios iniciais de produção de hardware ecoa as táticas adotadas por montadoras de veículos elétricos e empresas aeroespaciais no início do século, buscando controlar gargalos de componentes antes de focar em escala terceirizada. Fora do que foi dito no vídeo, essa abordagem exige capital intensivo, mas reduz incertezas em cadeias de suprimentos complexas.
No campo comercial, o executivo citou a parceria de seis meses com a BMW, afirmando ter participado da montagem do primeiro carro do mundo construído por um robô humanoide. O objetivo final da manufatura, no entanto, é o que o fundador descreve como produção autônoma total: robôs construindo robôs e os embalando sem intervenção humana. Segundo ele, a interação física e o processo de tentativa e erro no mundo real representam a peça final para o desenvolvimento da Inteligência Artificial Geral.
A viabilidade da Figure depende agora da coleta de dados de alta qualidade e da generalização de seus modelos de IA para novos ambientes. Enquanto a empresa planeja oferecer os robôs para o mercado doméstico por algumas centenas de dólares mensais no modelo de leasing, a prioridade atual permanece na validação comercial e industrial. Se a hipótese da companhia estiver correta, a robótica humanoide deixará de ser um nicho de automação programada para se tornar a plataforma primária de interação física da inteligência artificial.
Fonte · Brazil Valley | Robotics




