Em entrevista ao podcast Market Makers em junho de 2026, Leonardo da Wad, gestor da Cross Capital e ex-COO da XP Asset, estabeleceu uma distinção operacional clara sobre a adoção de inteligência artificial institucional. A falha primária dos usuários, segundo o executivo, reside na expectativa de que os modelos operem como oráculos independentes. Como previsor de próximos caracteres, a eficácia do sistema depende diretamente da janela de contexto fornecida. Da Wad argumenta que o Claude, desenvolvido pela Anthropic, consolidou-se como a infraestrutura analítica preferencial no mercado financeiro desde 2023. A preferência não deriva de uma suposta inteligência superior, mas de uma característica arquitetônica: a propensão do modelo em questionar o usuário antes de processar respostas, refinando variáveis financeiras estruturais antes da execução da tarefa.

A divergência arquitetônica e a aplicação institucional

A separação de funções entre diferentes modelos é tratada por Da Wad como uma necessidade de higiene de dados. O executivo relata utilizar o ChatGPT para demandas cotidianas, evitando que o histórico de interações triviais polua a memória de contexto utilizada para o trabalho analítico. O Claude, por sua vez, é isolado para tarefas financeiras devido à sua capacidade superior de raciocínio estruturado antes da geração da resposta final.

Na prática das gestoras, essa capacidade se traduz no cruzamento de dados não estruturados de múltiplas fontes. Da Wad cita o uso do Claude para analisar dezenas de podcasts simultaneamente, buscando identificar sinais fortes e tendências emergentes que passariam despercebidos na análise manual. Além da agregação, o modelo é treinado com relatórios e cartas mensais prévias para replicar a voz institucional ou clonar a estrutura de pensamento de analistas específicos, padronizando a produção de relatórios a partir de rascunhos.

Outra aplicação tática descrita na entrevista é a configuração do Claude como um validador de teses. Investidores programam o modelo com a instrução estrita de discordar de qualquer premissa apresentada, forçando um teste de estresse argumentativo antes da alocação de capital. Essa dinâmica transforma a ferramenta de um gerador de texto em um auditor lógico de hipóteses financeiras.

Automação de código e a reconfiguração do serviço

A fronteira de produtividade atual migrou da geração de texto para a execução autônoma através de ferramentas como o Claude Code e o recurso de controle de máquina. Enquanto o primeiro traduz linguagem natural para código executável, permitindo que profissionais sem conhecimento de programação criem sistemas proprietários de organização e análise, o segundo assume o controle do navegador do usuário para executar tarefas repetitivas. O executivo alerta que o uso de agentes autônomos exige supervisão, dado que o modelo toma decisões em tempo real na máquina do usuário, consumindo volumes expressivos de tokens.

A ascensão desses agentes levanta questões estruturais sobre a desintermediação no mercado financeiro. Na visão de Da Wad e do apresentador Thiago Salomão, a inteligência artificial não extinguirá a profissão de assessor de investimentos, mas bifurcará o mercado. O atendimento humano será um serviço premium focado em relacionamento, enquanto carteiras com menor volume de capital, que historicamente não recebiam atenção personalizada, passarão a ser geridas por inteligências artificiais de alto nível.

Para contexto, a BrazilValley aponta que a automação do varejo financeiro segue uma trajetória histórica de ganho de escala tecnológica, na qual inovações que reduzem o custo de distribuição frequentemente expandem a base total de clientes antes de canibalizar as margens do topo da pirâmide. O executivo projeta um cenário de curto prazo onde a comunicação digital será majoritariamente conduzida entre agentes artificiais, alterando o protocolo de interação entre clientes e instituições.

A transição descrita por Leonardo da Wad evidencia o amadurecimento da inteligência artificial no setor financeiro: o fim da fase de testes isolados e o início da integração em fluxos de trabalho institucionais. A vantagem competitiva deixa de ser o acesso aos modelos e passa a ser a capacidade de orquestração e a qualidade dos dados proprietários inseridos na janela de contexto. O mercado caminha para um ecossistema onde a eficiência analítica é o piso, exigindo que gestores e assessores redefinam o valor prêmio de sua interação humana.

Fonte · Brazil Valley | Finance