A cadeia global de semicondutores repousa sobre um único ponto de falha: a ASML, empresa holandesa sediada em Veldhoven, é a única fornecedora mundial de máquinas de litografia por ultravioleta extremo (EUV). Sem elas, TSMC, Samsung e Intel não fabricam chips abaixo de 7 nanômetros. Nenhuma outra empresa — nem japonesa, nem americana, nem chinesa — chegou perto de replicar a tecnologia. Isso não é uma vantagem competitiva convencional; é uma singularidade industrial com consequências diretas para defesa, inteligência artificial e política externa.

A Física Impossível que Virou Produto

Litografia EUV opera com luz de 13,5 nanômetros de comprimento de onda — cerca de 14 vezes menor que a luz ultravioleta convencional usada em gerações anteriores de máquinas. Para gerar essa luz, a ASML desenvolveu um processo que dispara pulsos de laser de CO₂ contra gotículas de estanho líquido a 50.000 vezes por segundo, criando um plasma que emite radiação EUV. A analogia interna da empresa é com o funcionamento de uma supernova em miniatura — descrição técnica, não metáfora de marketing, conforme detalhado por Jayson Stewart no IEEE Spectrum.

O problema central é que nenhum material reflete EUV de forma eficiente. Espelhos convencionais absorvem a luz em vez de redirecioná-la. A solução foi desenvolver espelhos de molibdênio e silício com camadas alternadas de apenas alguns átomos de espessura, polidos com precisão de frações de nanômetro. Uma máquina EUV contém cerca de 100.000 peças, pesa 180 toneladas e requer avião cargueiro para transporte. O livro Focus: The ASML Way, de Marc Hijink, documenta as duas décadas de desenvolvimento que separaram o conceito da produção em escala.

Comparativamente, a corrida pelo EUV lembra menos a competição entre fabricantes de chips dos anos 1990 e mais o desenvolvimento de tecnologia nuclear: alto custo, longa gestação, resultado com poucas nações capazes de operar. A diferença é que aqui o resultado pertence a uma empresa de capital aberto, não a um Estado.

Monopólio Técnico como Vetor Geopolítico

A ASML tem entre seus maiores clientes TSMC (Taiwan), Samsung (Coreia do Sul) e Intel (EUA). A China, que opera fábricas como SMIC, está bloqueada de receber máquinas EUV desde 2019, quando o governo holandês — sob pressão americana — revogou a licença de exportação. A decisão efetivamente congela a capacidade chinesa de produzir chips abaixo de 7nm por tempo indeterminado, independentemente de quanto capital Pequim aloque para o setor.

Essa interdição transformou a ASML em instrumento de política externa sem que a empresa tenha escolhido esse papel. Jos Benschop, VP de tecnologia da ASML, e Jan van Schoot, que participaram das gravações do vídeo do Veritasium, operam numa empresa que agora é citada em documentos do Congresso americano e em comunicados do Ministério do Comércio dos EUA com a mesma frequência que em relatórios de semicondutores.

O risco de concentração é estrutural. Se Veldhoven sofresse uma interrupção prolongada — desastre, conflito, colapso de fornecedor crítico —, não existe segunda fonte. A indústria global de chips, que movimenta mais de US$ 500 bilhões por ano, não tem redundância para sua ferramenta mais crítica. Isso distingue a ASML de outros monopólios tecnológicos: o Google pode ser substituído por Bing; uma fábrica sem EUV simplesmente não produz chips avançados.

O que permanece sem resposta é o horizonte temporal dessa dependência. A próxima geração, High-NA EUV, já está em desenvolvimento na ASML — o que significa que o monopólio não está sendo erodido, está sendo renovado. Para governos, investidores e estrategistas industriais, a pergunta relevante não é se a ASML é importante, mas quanto tempo uma arquitetura de risco tão concentrada pode durar sem consequências sistêmicas.

Fonte · The Frontier | Technology