A inteligência artificial não vai apenas otimizar processos internos no setor financeiro; ela vai destruir as margens de lucro construídas sobre a fricção e a inércia do consumidor. Em vídeo publicado no canal The Frontier | Finance em 12 de outubro de 2025, o CEO da Klarna, Sebastian Siemiatkowski, argumenta que a mobilidade do cliente se tornará ultralta. Sistemas financeiros digitais analisarão despesas e farão a portabilidade automática de produtos complexos, como hipotecas. Segundo o executivo, os bancos de varejo hoje não precisam ser excepcionais porque a troca de instituição é difícil. A IA eliminará essa barreira, forçando uma compressão imediata dos lucros excedentes do setor.
A comoditização do legado e o custo do software
Para Siemiatkowski, a arquitetura do sistema financeiro será dividida de forma binária. Os bancos tradicionais, sobrecarregados por infraestruturas antigas — o executivo cita especificamente sistemas rodando código COBOL em mainframes —, tendem a se tornar puros balanços financeiros. A função dessas instituições será estritamente otimizar o retorno sobre o patrimônio, fornecendo liquidez. A interface com o cliente, por outro lado, será dominada por assistentes digitais. O CEO afirma que o consumidor não se importará se o provedor do serviço de fundo é o Barclays ou outra instituição; o valor residirá inteiramente em quem controla a camada de assistência.
Essa reconfiguração é acelerada por uma deflação estrutural no desenvolvimento de tecnologia. O executivo aponta que o custo de produção de software está tendendo a zero. Instituições financeiras costumavam depender de salas cheias de profissionais bem pagos digitando linhas de código caractere por caractere. Hoje, máquinas geram esse código e melhoram a cada seis meses. Para contexto, a BrazilValley aponta que a tese de que a IA generativa corroerá as margens de empresas puramente baseadas em software tem ganhado tração entre investidores de risco, forçando uma reavaliação de modelos de negócios baseados em licenciamento tradicional e grandes equipes de engenharia.
A reestruturação da força de trabalho
A compressão de custos não se limita à tecnologia. Siemiatkowski é enfático sobre o impacto iminente no trabalho intelectual, citando como exemplo os 8.000 tradutores em Bruxelas, cujas funções já poderiam ser majoritariamente executadas por IA. Na própria Klarna, a aplicação prática dessa visão resultou em uma redução do quadro de funcionários de 7.400 para cerca de 3.000 pessoas. O executivo ressalta que o corte ocorreu por atrito natural e congelamento de contratações, não por demissões diretas. O resultado financeiro foi um salto na receita por funcionário, que passou de US$ 400 mil para mais de US$ 1 milhão nos últimos dois anos.
Apesar da adoção agressiva, a empresa mantém linhas divisórias claras sobre onde aplicar a tecnologia. O CEO revela que a Klarna não utiliza grandes modelos de linguagem (LLMs) ou aprendizado de máquina em decisões de crédito, citando riscos de viés e confiança. Em contrapartida, a automação tem sido altamente bem-sucedida no gerenciamento de disputas de clientes. Segundo ele, a IA analisa evidências de consumidores e lojistas com uma consistência superior à de humanos, que tendem a sofrer de fadiga e desinteresse em tarefas repetitivas.
O cenário desenhado pela Klarna sugere um mercado financeiro onde a tecnologia deixa de ser um diferencial competitivo para se tornar uma commodity abundante. A resposta estratégica de Siemiatkowski a essa deflação é a busca implacável por escala. Com 111 milhões de clientes, a tese da fintech é que a automação reduzirá o tamanho total do bolo de lucros do setor, exigindo que os vencedores capturem fatias globais muito maiores para entregar retornos aos investidores. A sobrevivência no varejo bancário da próxima década dependerá de volume absoluto, não de margens por usuário.
Fonte · Brazil Valley | Finance




