A aposta da Apple em semicondutores domésticos não é uma ruptura com a globalização — é uma cobertura de risco geopolítico com prazo e custo ainda indefinidos. A quase totalidade dos chips mais avançados do mundo é fabricada em Taiwan, território que a China reivindica e ameaça anexar. Para uma empresa cujo valor de mercado supera US$ 3 trilhões e cuja margem operacional depende de componentes fabricados a milhares de quilômetros de distância, concentrar suprimentos em uma ilha sob tensão militar constante deixou de ser aceitável como estratégia de longo prazo.

A anatomia de uma cadeia que não se move facilmente

O repórter Rolfe Winkler, do Wall Street Journal, percorreu quatro elos da cadeia de suprimentos da Apple no sudoeste dos Estados Unidos: uma instalação de wafers de silício, a fábrica da TSMC em construção no Arizona, um centro da ASML e a operação da Foxconn na região. O roteiro é revelador não pelo que mostra, mas pelo que omite. Cada uma dessas paradas representa uma fração de um processo que envolve dezenas de etapas, equipamentos com décadas de especialização acumulada e uma força de trabalho técnica que os EUA simplesmente não têm em escala.

A TSMC, que fabrica virtualmente todos os chips de ponta da Apple — incluindo a série M e o A17 Pro —, está construindo duas fábricas em Phoenix com investimento anunciado de US$ 65 bilhões. Mas os próprios executivos da empresa admitiram publicamente atrasos e dificuldades em recrutar engenheiros qualificados localmente, chegando a trazer profissionais de Taiwan para suprir a lacuna. A ASML, fornecedora holandesa dos únicos equipamentos de litografia EUV do planeta, tem presença nos EUA, mas sua cadeia de fornecimento de componentes críticos permanece europeia e asiática.

Tarifas como catalisador, não como solução

O governo Trump introduziu tarifas agressivas sobre importações de semicondutores e eletrônicos, criando pressão adicional para que empresas como a Apple acelerem a relocalização. O mecanismo é real: encarece a alternativa de importar e subsidia, via CHIPS Act — legislação aprovada em 2022 com US$ 52 bilhões em incentivos —, quem investe em solo americano. A Apple já sinalizou que os chips do iPhone 18 poderão ser fabricados no Arizona.

Mas a lógica das tarifas como instrumento de política industrial tem limites evidentes. Comparado ao esforço sul-coreano nas décadas de 1970 e 1980, quando o governo de Seul construiu uma indústria de semicondutores do zero via proteção tarifária combinada com investimento estatal de longo prazo, o modelo americano atual é reativo e fragmentado. A Foxconn, última parada do roteiro do WSJ, ilustra bem a ambiguidade: é uma empresa taiwanesa operando no Texas para montar produtos de uma empresa californiana com chips fabricados por outra empresa taiwanesa — desta vez, no Arizona.

O que está sendo construído nos EUA é menos uma indústria doméstica de semicondutores do que uma extensão geograficamente distribuída de uma cadeia que continua sendo asiática em sua essência técnica e humana. O risco de Taiwan não desaparece; ele é parcialmente diluído. A questão sem resposta é quanto dessa diluição é suficiente — e a que custo para o preço final do iPhone.

Fonte · The Frontier | Technology