O argumento central de Dacher Keltner, psicólogo da UC Berkeley e autor de Awe: The New Science of Everyday Wonder (2023), é incômodo para a cultura da produtividade: a emoção mais negligenciada da vida moderna pode ser exatamente aquela que ancora o bem-estar coletivo. Não se trata de espiritualidade difusa. Keltner construiu uma agenda de pesquisa empírica sobre o awe — o estado de assombro diante de algo vasto que desafia os esquemas mentais existentes — e suas conclusões apontam para uma função evolutiva concreta: silenciar o ego, redirecionar a atenção para padrões maiores e fortalecer a coesão social.

O Que a Neurociência do Assombro Revela Sobre o Eu

A distinção que Keltner traça entre assombro e medo é o ponto de partida mais produtivo da conversa. Ambas as emoções são disparadas por estímulos vastos e potencialmente avassaladores — uma tempestade, uma multidão em êxtase, a morte de alguém próximo. A diferença está na resposta do sistema nervoso: o medo ativa a autopreservação e estreita o foco; o assombro, ao contrário, desativa o que Keltner chama de default mode network — a rede cerebral associada à ruminação egocêntrica — e expande a percepção. Estudos do seu laboratório mostram que breves exposições a experiências de assombro reduzem marcadores inflamatórios como citocinas pró-inflamatórias, sugerindo que o estado tem consequências fisiológicas mensuráveis, não apenas subjetivas.

Esse mecanismo explica por que o assombro aparece em contextos tão díspares: a grandiosidade de uma sinfonia de Mahler, o gesto de coragem moral de um desconhecido, a geometria de uma floresta de sequoias. O denominador comum não é o conteúdo, mas a estrutura da experiência — algo que excede a capacidade atual de processamento e exige que o sujeito expanda seus esquemas. Keltner usa o termo vastness para descrever essa qualidade, e o distingue cuidadosamente do simples prazer estético.

Modernidade como Ambiente Empobrecido de Assombro

A tese mais provocadora de Keltner é estrutural: a vida contemporânea não é apenas esteticamente pobre em assombro — ela é arquitetada para suprimi-lo. Ambientes urbanos densos, ciclos de notícias que privilegiam a ameaça, e a mediação permanente da experiência por telas criam o que ele descreve como um regime de atenção cronicamente estreito. A comparação relevante aqui é com pesquisas sobre nature deficit disorder — conceito popularizado por Richard Louv em Last Child in the Woods (2005) — mas Keltner amplia o diagnóstico: não é só a natureza que falta, é qualquer forma de encontro com o que é maior que o eu imediato.

A música aparece na conversa como o vetor de assombro mais democrático e mais estudado. Não porque seja mais elevada que outras formas, mas porque opera diretamente sobre o corpo — arrepios, lágrimas, sincronização de movimentos — antes que o córtex pré-frontal possa racionalizar a experiência. Isso importa porque desafia a hierarquia iluminista que coloca a razão acima da emoção como via de acesso ao real. Keltner sugere que o corpo é, em certos casos, um instrumento epistemológico mais rápido e mais preciso que o pensamento discursivo.

O luto como fonte de assombro é talvez o argumento mais contraintuitivo do episódio. Keltner propõe que a perda de alguém amado pode produzir um estado de assombro — não apesar da dor, mas através dela — porque força o confronto com a escala do que existiu e do que foi perdido. É uma reabilitação emocional do luto como experiência de expansão, não apenas de contração.

O que fica sem resposta é a questão prática mais urgente: como desenhar ambientes — urbanos, institucionais, digitais — que não apenas permitam, mas cultivem ativamente o assombro? Keltner oferece práticas individuais, mas a escala coletiva do problema exige respostas que a psicologia positiva, sozinha, não consegue fornecer.

Fonte · The Frontier | Society