As escolhas de Thomas Bangalter em uma rara aparição pública são um decodificador para a mitologia do Daft Punk. Em visita à série Closet Picks da Criterion Collection, publicada em 7 de agosto de 2026, o músico, agora em “forma humana”, selecionou oito obras que funcionam como a base intelectual de seu trabalho. A seleção revela uma obsessão de décadas com a relação entre humanidade e tecnologia, um tema que, segundo ele, começou aos três anos com Tempos Modernos de Chaplin e culminou na exploração da fronteira entre ficção e realidade com os robôs. A análise de Bangalter sobre Vidas em Jogo (The Game), de David Fincher, é a mais direta: o filme foi uma “grande influência” para a persona do Daft Punk, um projeto que aplicou técnicas cinematográficas à vida real para questionar onde a ficção termina e a realidade começa.
A Obsessão pela Máquina
A fascinação de Bangalter pela interação entre homem e tecnologia é o fio condutor de seu cânone. Ele relata que, aos três anos, seus pais o deixaram com uma fita Betamax de Tempos Modernos, e ele se “condicionou” assistindo ao filme repetidamente. Ali, diz, começou sua “obsessão com a relação entre a humanidade e... a tecnologia e a alienação”. Essa semente floresceu em outras escolhas, como a trilogia Qatsi, de Godfrey Reggio. Bangalter cita Koyaanisqatsi como uma “grande inspiração” para Electroma, o filme que dirigiu com o Daft Punk, destacando seu pioneirismo na cinematografia com luz disponível. Ele se refere à obra como um “álbum visual”, um formato que claramente reverbera com sua própria produção musical.
A conexão mais explícita entre seu cinema de formação e a prática artística do Daft Punk aparece em sua análise de Vidas em Jogo. Bangalter afirma que o thriller de Fincher foi fundamental para sua investigação sobre “ficção e realidade”. Ele traça um paralelo direto entre as técnicas de produção do filme — que utiliza um grande número de figurantes para criar uma realidade fabricada — e o método do Daft Punk. O duo, segundo ele, recorreu a oficinas de efeitos especiais para criar adereços e integrá-los à realidade, confundindo deliberadamente o público sobre os limites da performance. A persona dos robôs, portanto, não era um disfarce, mas uma aplicação literal de um conceito cinematográfico.
A Primazia da Imagem
Bangalter demonstra uma clara preferência por filmes onde a narrativa é conduzida pela imagem e pela música, em detrimento do diálogo. Ele descreve A Cor da Romã (The Color of Pomegranates), de Sergei Parajanov, como “o filme mais bonito já feito” e “música para os olhos”, onde “cada plano é um poema”. A experiência, segundo ele, se assemelha a uma adaptação cinematográfica do Livro Vermelho de Carl Jung. Essa valorização da estética visual permeia outras escolhas, como Irmãs Diabólicas (Sisters), de Brian De Palma, que ele alugava semanalmente com Guy-Manuel de Homem-Christo antes de começarem a fazer música, e Quero Ser John Malkovich, de Spike Jonze, diretor do primeiro clipe do Daft Punk, “Da Funk”.
O contraponto a essa tendência é Festa de Família (The Celebration), de Thomas Vinterberg. Bangalter o seleciona precisamente por ser uma obra movida a diálogo, descrevendo-a como a “experiência mais visceral e poderosa” que já teve em um cinema. Ele elogia a “audácia de se manifestar e quebrar o silêncio” sobre o abuso, mostrando que, para ele, a palavra ganha força quando serve a um propósito de ruptura. Outra escolha, Martha Graham: Dance on Film, revela um lado mais pessoal: uma homenagem à sua esposa e a uma família de dançarinos, ainda que ele admita não ter visto a obra.
As seleções de Bangalter não são apenas uma lista de filmes favoritos, mas o código-fonte de um dos projetos culturais mais significativos das últimas décadas. Elas confirmam que as personas dos robôs não foram um artifício de marketing, mas a conclusão lógica de uma investigação artística sobre identidade, tecnologia e espetáculo, iniciada muito antes do primeiro beat. Sua aparição “em forma humana” para discutir essas influências funciona como um epílogo, fechando o ciclo de um dos mais bem-sucedidos experimentos sobre ficção e realidade da música pop.
Fonte · Brazil Valley | Podcast




