Em entrevista recente, a historiadora Anne Applebaum argumenta que o colapso das democracias modernas raramente ocorre por meio de rupturas violentas. O declínio acontece quando líderes legitimamente eleitos desmantelam sistematicamente instituições neutras — como cortes, comissões eleitorais e a burocracia meritocrática — para perpetuar poder e extrair vantagens financeiras. A erosão institucional descrita pela autora não afeta apenas o tecido social, mas impõe uma mudança estrutural na forma como o Estado interage com o capital privado e com a ordem geopolítica global.
A privatização do Estado e a coerção corporativa
Applebaum aponta que a administração de Donald Trump representa um marco na história americana de governantes operando negócios privados enquanto ocupam o cargo. Ela cita que o patrimônio de Trump saltou de US$ 2,3 bilhões para US$ 6,5 bilhões em dois anos, e questiona o investimento de US$ 2 bilhões do governo saudita no fundo de Jared Kushner. Para a historiadora, a aparência de conflito de interesses sugere que decisões geopolíticas são tomadas com base nas vantagens financeiras da família presidencial, e não do país.
Esse modelo se espelha em táticas de autocracias consolidadas. A historiadora relata o caso da Hungria sob Viktor Orbán, onde o Estado assedia empresas privadas por meio de inspeções fiscais e problemas regulatórios sucessivos, até forçar os fundadores a venderem o controle de seus negócios para aliados do governo.
Nos Estados Unidos, uma dinâmica de pressão semelhante começa a afetar o setor de tecnologia. Applebaum menciona que a Anthropic enfrentou ameaças públicas de restrição a contratos governamentais após recusar acesso à sua inteligência artificial sob certas condições. Diante desse cenário, líderes corporativos — como o CEO da OpenAI, que em 2016 descrevia Trump como uma ameaça comparável a ditadores históricos — agora buscam alinhamento público. A elite do Vale do Silício silencia críticas e financia fundos ligados à Casa Branca para proteger seu status e evitar que concorrentes obtenham vantagens estatais exclusivas.
Isolamento estratégico e manipulação eleitoral
A instabilidade interna e as decisões impulsivas forçaram uma reconfiguração global. Applebaum cita o episódio em que a ameaça pública de invasão à Groenlândia forçou a Dinamarca e a Alemanha a planejarem cenários reais de confronto militar com os Estados Unidos. Como resultado desse choque de imprevisibilidade, nações aliadas começaram a fazer hedging. O Canadá iniciou diálogos de segurança com a União Europeia e negociações com outras potências, enquanto europeus discutem infraestrutura própria de nuvem e sistemas de pagamentos para mitigar a dependência americana.
Internamente, a perpetuação do poder depende da manipulação do sistema. A historiadora destaca o uso intensivo de gerrymandering — o redesenho de distritos eleitorais para favorecer um único partido —, criando zonas onde não há competição real e, consequentemente, nenhuma necessidade de prestação de contas.
Para contexto, a BrazilValley aponta que a manipulação de regras de votação para suprimir a participação de grupos demográficos específicos é uma tática com profundas raízes históricas em sistemas políticos em transição autocrática. No cenário descrito por Applebaum, propostas recentes de exigir passaporte ou certidão de nascimento para votar miram dificultar o acesso às urnas para fatias específicas do eleitorado, enquanto o uso de forças federais como o ICE levanta temores de intimidação direta no dia das eleições.
A transição do "estado de direito" para o "governo pela lei" — onde a legislação é moldada e aplicada conforme a conveniência de quem detém o poder — reescreve as regras do livre mercado. Quando a lealdade política substitui a meritocracia corporativa e a estabilidade institucional, o custo transcende a política e atinge a economia real. A adaptação passiva a essas novas regras por parte da elite empresarial pode garantir sobrevivência de curto prazo, mas legitima um ecossistema onde o próprio capital perde sua independência.
Fonte · Brazil Valley | Society




