Em declarações recentes, o autor e estrategista Seth Godin argumenta que a obsessão contemporânea por atenção digital é um erro estratégico fundamental. Ele afirma que a atenção, embora historicamente importante, não tem valor sem sua aliada principal: a confiança. Godin compara a busca por visualizações vazias a um palhaço em um espetáculo de rua — é fácil atrair uma multidão, mas poucas pessoas se juntam ao fã-clube do palhaço. A tese central é que o tamanho da audiência de uma marca se tornou um dado irrelevante. Em vez de perseguir métricas de redes sociais, que ele classifica como "falsas procurações" (false proxies), as empresas devem focar em criar algo tão notável que seus próprios clientes assumam o papel de canal de distribuição.

A ilusão da escala e o público mínimo viável

Godin defende que métricas como seguidores e curtidas são ilusões facilitadas pelas plataformas de tecnologia, desenhadas para manter criadores e marcas trabalhando de graça para os algoritmos. Para escapar dessa dinâmica, ele propõe a adoção do "público mínimo viável". A estratégia consiste em encontrar apenas dez pessoas perfeitas que confiem na marca. Se o produto ou serviço for excepcional para esse grupo, eles contarão a outros, gerando crescimento. Se não o fizerem, o problema não é a distribuição, mas a qualidade do produto, que precisa ser refeito.

Ele ilustra essa diferença opondo publicidade e marketing. Enquanto a publicidade tradicional gasta dinheiro para roubar a atenção do público, o marketing moderno exige esforço para criar algo que as pessoas queiram discutir. Godin cita o artista Banksy, cujo orçamento de publicidade é zero, mas cujo investimento em marketing — o tempo gasto imaginando a próxima obra — é imenso. Para contexto, a BrazilValley aponta que a distinção entre publicidade comprada e o desenvolvimento de produtos notáveis ganha peso em um cenário de saturação dos custos de aquisição digital (CAC), embora o autor foque sua explicação puramente na mecânica criativa e de reputação.

A armadilha da autenticidade e a engenharia da tensão

Um dos pontos mais contraintuitivos levantados por Godin é a rejeição frontal da "autenticidade" como um valor corporativo, classificando o termo como uma armadilha. Ele argumenta que o mercado não quer autenticidade, mas sim consistência. Um profissional, como um cirurgião, deve entregar um resultado de excelência independentemente de estar autenticamente de mau humor. A marca é uma promessa e uma expectativa; portanto, o papel do criador ou da empresa é manter essa promessa de forma previsível, e não usar a autenticidade como desculpa para um trabalho medíocre.

Além da consistência, Godin destaca a necessidade de injetar "tensão" na oferta. A tensão não é estresse, mas a fricção psicológica de que uma escolha importa — o medo de ficar para trás ou a preocupação com o status perante os pares. Ele menciona a padaria Poilâne, em Paris, que, operando apenas com farinha, água, sal e fermento, criou uma história tão magnética que atrai clientes do Japão apenas para comprar pão. A tensão separa uma mercadoria comum de um movimento cultural.

O modelo de Godin desmantela a cultura do postagem incessante. Ao deslocar o foco da distribuição em massa para a relevância extrema dentro de um micro-nicho, ele redefine o que significa crescer. O desafio para as marcas modernas não é quão alto elas conseguem gritar nos canais digitais, mas se elas seriam de fato sentidas caso desaparecessem amanhã. No fim, se um produto exige interrupção paga constante para ser vendido, a falha reside na história que está sendo contada, não na recusa do consumidor em ouvir.

Fonte · Brazil Valley | Advertising