Em discussão recente sobre o setor elétrico brasileiro, executivos da gestora Suno detalharam a transformação estrutural que levou a energia solar de uma posição irrelevante em 2017 para a segunda maior fonte instalada no país. Vitor Duarte, CEO da Suno Asset, e Anderson Tonelli, diretor de operações, apontam que a matriz energética nacional já alcança 22% de dependência solar, atrás apenas da fonte hídrica, que representa 44%. O ponto de inflexão não ocorreu por inovações complexas de engenharia, mas por uma drástica redução de capex global: o preço do policilício, matéria-prima dos painéis, despencou de patamares de US$ 400 a tonelada para menos de US$ 10. Aliado a uma vantagem geográfica natural — onde o estado brasileiro com menor irradiância, o Rio Grande do Sul, supera a melhor região da Alemanha —, o barateamento deflagrou uma corrida de investimentos no mercado local.

A assimetria da geração distribuída

O motor financeiro dessa expansão concentrou-se na Geração Distribuída (GD). O modelo permite que consumidores aluguem frações de usinas solares remotas para abater créditos na conta de luz, contornando encargos setoriais que pesam sobre a tarifa tradicional. Segundo Duarte, essa assimetria regulatória criou um abismo de rentabilidade. Enquanto operadoras de geração centralizada, como a Eletrobras, operam com margens EBITDA na casa dos 39%, os projetos de GD chegam a registrar margens de 85%.

Essa janela de oportunidade atraiu capital de forma agressiva até 2022, quando o marco legal do setor estabeleceu limites para os incentivos. No auge do ciclo, projetos de GD chegaram a projetar taxas internas de retorno (TIR) de 35%. Hoje, com a acomodação do mercado e o aumento da oferta, a TIR estabilizou-se entre 16% e 17%, entregando dividendos líquidos atrelados à inflação energética. A pulverização do modelo foi tamanha que, se todos os telhados e pequenas fazendas solares fossem consolidados em uma única entidade, a GD seria a segunda maior geradora do Brasil, superando corporações tradicionais do setor.

Apesar da simplicidade tecnológica da infraestrutura — comparada por Duarte à montagem de blocos de Lego —, a operação exige sofisticação na manutenção. Falhas básicas, como o crescimento de vegetação sob as placas, rompimento de cabos por roedores ou avarias por intempéries, podem anular a rentabilidade se não houver monitoramento contínuo por sistemas de telemetria e controle de performance, evitando que usinas se desliguem inadvertidamente do sistema.

O gargalo do armazenamento e a nova demanda

A escalada da capacidade instalada esbarra agora em um limite físico inegociável: a intermitência. A geração solar atinge seu pico durante o dia, gerando excesso de oferta, mas zera exatamente no horário de maior consumo do sistema elétrico nacional, entre 18h e 21h. Tonelli explica que usinas de grande porte já enfrentam cortes de geração (curtailments) impostos pelo Operador Nacional do Sistema (ONS) por incapacidade de escoamento na rede.

A solução para este descasamento reside no armazenamento. A viabilidade econômica das baterias é o próximo gatilho de destravamento de valor para o setor. O mercado já testa o reaproveitamento de baterias degradadas de veículos elétricos para estocar a energia excedente do meio-dia e injetá-la na rede durante o pico noturno. Para contexto editorial, a BrazilValley aponta que a transição de um modelo de geração intermitente para um sistema despachável via baterias é um desafio global, exigindo investimentos massivos em infraestrutura que ainda desafiam as teses de alocação de risco tradicionais.

O risco de sobreoferta no curto prazo, no entanto, é mitigado por um choque de demanda no horizonte. A eletrificação de frotas e, principalmente, a instalação de data centers voltados para inteligência artificial garantem um piso de consumo crescente para os próximos anos.

O amadurecimento do mercado solar brasileiro encerra a fase do dinheiro fácil e entra em um estágio de consolidação industrial. O desafio migra da simples construção de usinas para a eficiência operacional e a gestão de ativos em larga escala. Ao se posicionarem como fornecedores de infraestrutura básica para o próximo ciclo tecnológico, os operadores de energia solar deixam de ser uma tese puramente ambiental para se consolidarem como o equivalente financeiro da venda de pás e picaretas em uma nova corrida do ouro. A barreira agora não é mais a captação de sol, mas a capacidade de estocá-lo.

Fonte · Brazil Valley | Brazil in Focus