Em entrevista ao Human Podcast, Fernando Marar, atual head de brand design do Nubank, articula uma visão onde o design opera fundamentalmente como um método pragmático. Longe do estereótipo guiado por inspiração súbita, Marar defende que a disciplina exige um processo estruturado capaz de transformar abstrações em ferramentas escaláveis. Essa mudança de paradigma — de enxergar a execução como uma corrida de cem metros para uma maratona — foi moldada no início de sua carreira em agências como a Wieden+Kennedy, no atendimento a marcas como Nike. O eixo central de sua prática reside na subordinação da forma à função sistêmica, garantindo que o resultado final possa ser operado de maneira consistente, independentemente de quem o manipule na ponta.

A parametrização da arte e identidades generativas

A aplicação desse método processual fica evidente na intersecção entre design e música. Durante sua passagem pela agência África, em um projeto para a Budweiser, Marar desenvolveu um sistema visual para um disco de Hermeto Pascoal. A premissa exigia que o músico gravasse faixas utilizando apenas um instrumento por vez — incluindo um copo d'água e uma flauta baixo. A partir da captação, a equipe construiu parâmetros visuais onde o som do copo d'água gerava distorções semelhantes a ondas em um lago, enquanto o sopro da flauta dispersava a imagem como grãos de areia. O design, neste caso, atuou como a ferramenta que traduziu a música em imagem de forma automatizada.

Essa lógica de sistematização também norteou a identidade visual criada para uma orquestra de refugiados em Nova York. O projeto dissecou bandeiras globais em padrões básicos, demonstrando que nações rivais, como Estados Unidos e Cuba, compartilham as mesmas cores e formas geométricas. O resultado foi uma ferramenta generativa que permitia à orquestra, mesmo com uma equipe reduzida, criar infinitos materiais gráficos e souvenirs a partir de cliques que recombinavam esses elementos.

Para contexto, a BrazilValley aponta que a transição de identidades visuais estáticas para sistemas generativos reflete uma mudança estrutural na comunicação de marcas, permitindo que organizações escalem sua produção gráfica de forma descentralizada sem perder a coesão institucional.

Escala e restrição no ecossistema digital

No ambiente corporativo, o rigor processual ganha a restrição da escala tecnológica. Ao liderar a criação da tipografia proprietária do Nubank (Nu Sans), Marar conduziu um projeto de quatorze meses que começou com quatro meses de diagnóstico e workshops manuais. O desafio técnico central não era apenas estético, mas de engenharia de software: a nova fonte para textos corridos precisava ter uma métrica idêntica à tipografia anterior. Caso as larguras divergissem, a implementação causaria quebras de linha e falhas em milhões de telas no aplicativo. A obediência a essa restrição matemática permitiu que o rollout ocorresse em duas semanas sem instabilidades no sistema.

Essa mesma capacidade de organizar o caos criativo foi aplicada no mercado fonográfico independente. Na direção criativa do álbum "O Próprio", do artista Yago Oproprio — indicado ao Grammy Latino —, Marar conteve a ideia inicial de uma capa preta abstrata para construir um sistema visual cíclico. Utilizando cores primárias inspiradas em pinturas de Rodrigo Branco e o uso estratégico da fonte Helvetica, a identidade foi desdobrada de forma coesa em jaquetas, cenografia de shows e uma trilogia de clipes onde o fim de um vídeo determinava o início do próximo.

A trajetória exposta ilustra a maturação do design, que deixa de ser um mero acabamento gráfico para atuar como engenharia estrutural. Seja transformando a vibração de um copo d'água em dados visuais ou garantindo que o desenho de uma letra não derrube a interface de um banco digital, a tese de Marar se sustenta na previsibilidade. A inovação no design não surge da ausência de regras, mas da capacidade de operar com excelência dentro das restrições impostas pelo sistema.

Fonte · Brazil Valley | Advertising