Em análise recente sobre o mercado imobiliário de altíssima renda, a evolução do Complexo Boa Vista revela a transição de loteamentos de lazer para a operação de cidades privadas. Localizado em Porto Feliz, a uma hora de São Paulo, o empreendimento da JHSF ocupa 30 milhões de metros quadrados e reflete a consolidação de um ecossistema fechado para milionários e bilionários. Com terrenos a partir de R$ 3.000 o metro quadrado e casas avaliadas em até R$ 300 milhões — abrigando nomes como Guilherme Benchimol e Nizan Guanaes —, o projeto deixou de ser um refúgio de fim de semana. A tese central da companhia baseia-se em capturar o cliente não apenas na venda do imóvel, mas em toda a sua cadeia de consumo, mobilidade e serviços, sustentada por uma agressiva engenharia financeira.

A evolução da cidade privada

Historicamente, o movimento de êxodo da elite paulistana em busca de segurança ganhou tração na década de 1970 com o Alphaville e o Terras de São José, em Itu. No final dos anos 1990, o Quinta da Baronesa elevou o padrão com lotes de 3.000 metros quadrados e infraestrutura de golfe e hípica. Lançada em 2007 pela família Auriemo, a Fazenda Boa Vista surfou nessa esteira, mas o ponto de inflexão ocorreu com a pandemia de covid-19. A busca por espaço fez o preço do metro quadrado em um terreno do condomínio saltar de R$ 700 no início de 2020 para R$ 2.200 no ano seguinte.

Para sustentar a atratividade e converter o local em primeira residência, a JHSF adensou a oferta de serviços. O Boa Vista Village, lançado em 2019 com foco em um público mais jovem e em apartamentos, prevê para 2027 a inauguração de uma unidade do colégio Visconde de Porto Seguro e um centro médico operado pelo Hospital Albert Einstein. A infraestrutura inclui ainda uma piscina de ondas artificiais de 220 metros de extensão e, até 2026, um shopping a céu aberto abrigando lojas, restaurantes e uma igreja católica.

O adensamento contínuo se reflete no recém-lançado Boa Vista Estates, projetado em março de 2026 para apenas 250 famílias em lotes a partir de 5.000 metros quadrados, e no futuro Boa Vista Lakes. Quando completo, a estimativa é que o complexo abrigue cerca de 3.000 famílias.

Engenharia financeira e o cerco do consumo

A estratégia da JHSF transcende a venda de terrenos para operar um ecossistema integrado de serviços. O portfólio da empresa conecta o Shopping Cidade Jardim, o Catarina Fashion Outlet e o São Paulo Catarina Internacional — aeroporto executivo privado em São Roque. Um voo de helicóptero de 10 minutos liga o aeroporto ao heliponto do Boa Vista, infraestrutura que tem atraído proprietários de fora de São Paulo, como famílias do agronegócio de Mato Grosso e de Belo Horizonte. Essa integração alimenta a linha de receita recorrente da companhia, que hoje representa 37% do faturamento bruto, impulsionada pelo aluguel de residências completas e pela expansão da rede hoteleira Fasano, que deve saltar de 11 para 19 unidades nos próximos anos.

O motor que viabilizou essa expansão intensiva em capital foi a fundação da gestora JHSF Capital em 2022. Em dezembro de 2025, a companhia executou um movimento decisivo no mercado: levantou R$ 5,2 bilhões por meio de uma oferta de ações de um fundo imobiliário estruturado para comprar seus próprios imóveis prontos e em desenvolvimento. A operação antecipou bilhões em caixa que ficariam retidos até a venda final dos empreendimentos. O resultado imediato refletiu-se em recordes de faturamento e lucro em 2025, além de uma valorização de 83% nas ações da empresa acumulada em 2026.

A liquidez injetada por essa operação financeira blinda a JHSF em um momento de acirramento da concorrência. Projetos rivais como a Fazenda da Grama, a futura Fazenda Vista Verde (com hotel da rede Vick Retreats) e a ultraexclusiva Fazenda Santa Pazenza — restrita a convidados da família Malzoni e com lotes a partir de 20.000 metros quadrados — disputam a mesma fatia do topo da pirâmide. O desafio do setor deixa de ser apenas a oferta de terras e passa a ser a capacidade de monopolizar a atenção e os recursos das famílias mais ricas do país. A JHSF estabeleceu a infraestrutura e garantiu o capital, mas a proliferação de complexos de luxo testará até onde o mercado suporta essa verticalização horizontal.

Fonte · Brazil Valley | Billionaires