Em análise recente sobre a infraestrutura aeroportuária global, nota-se uma defasagem histórica: nenhum aeroporto dos Estados Unidos figura entre os vinte melhores do mundo, contrastando com referências como Changi, em Singapura. A resposta mais ambiciosa a esse cenário emerge no Oregon. O Aeroporto Internacional de Portland (PDX) inaugurou a primeira fase de uma modernização de US$ 2 bilhões, a maior obra pública da história do estado. O terminal original de 1956, expandido de forma fragmentada por onze edifícios com diferentes códigos estruturais, tornou-se insustentável. A nova estrutura resolve esses gargalos e posiciona o local como o maior projeto de madeira massiva do mundo, projetado para suportar 35 milhões de passageiros até 2045.
A logística da operação contínua
O desafio central da reconstrução foi manter o aeroporto operacional durante os três anos de obras. A ZGF Architects e as construtoras Skanska e Hoffman precisaram navegar um ambiente que recebe 500 voos diários. Operações críticas, como a segurança, foram realocadas para as extremidades, permitindo a demolição do núcleo central enquanto o sistema de bagagens continuava funcionando.
A solução exigiu a transformação de uma seção do campo de aviação em canteiro de obras. O teto foi pré-fabricado em três seções maciças, com 18 peças pesando entre 270 mil e 635 mil quilos. A maior delas mede mais de 40 por 60 metros, estruturada com vigas de aço sob painéis de madeira.
A movimentação da estrutura demandou precisão mecânica. As seções foram elevadas a 17 metros e transportadas por cerca de 1,6 quilômetro ao longo da pista de taxiamento, a uma velocidade de 1,6 km/h. Cada seção levou três noites para ser posicionada, com os trabalhos sobre a área de bagagens restritos à janela de inatividade, entre meia-noite e 3h30 da manhã.
Madeira massiva e resiliência sísmica
O projeto adotou uma abordagem biofílica, utilizando mais de 5.000 plantas e 49 claraboias estratégicas para reduzir a pressão arterial dos passageiros e sequestrar emissões de carbono. A cobertura abrange 9 acres e utiliza 600 mil pés tábuas de abeto de Douglas. Todo o material foi obtido em um raio de 480 quilômetros do aeroporto, uma decisão que focou no desenvolvimento da cadeia de suprimentos local ao longo de seis anos, contrariando a prática de importar insumos mais baratos.
A escolha da madeira introduziu complexidades. Para proteger o material das intempéries durante a pré-fabricação, a equipe instalou um teto temporário com membrana protetora sobre a estrutura antes de sua movimentação final.
A engenharia estrutural também precisou responder à geografia. Com cientistas prevendo uma probabilidade de 37% de um grande terremoto no Oregon nos próximos 50 anos, o teto foi projetado para se mover como uma peça única. A estrutura repousa sobre colunas em forma de Y equipadas com isoladores de pêndulo de atrito na base. Esse sistema mecânico permite até 56 centímetros de movimento lateral durante um tremor, exigindo que as conexões entre o teto e as paredes adjacentes consigam pivotar em todas as direções.
A conclusão da primeira fase, com a segunda etapa prevista para o final de 2025, estabelece um novo paradigma para a aviação americana. Para contexto, a BrazilValley aponta que a renovação de infraestruturas legadas frequentemente esbarra em orçamentos estourados e interrupções crônicas na operação. O sucesso da engenharia modular no PDX demonstra ser possível executar atualizações de capital intensivo sem sacrificar a funcionalidade do ativo. Resta observar se o uso de pré-fabricação pesada servirá de precedente escalável para outros terminais do país ou se permanecerá como uma exceção regional.
Fonte · Brazil Valley | Architecture




