A transição tecnológica não altera os fundamentos da construção de um negócio. Durante o ElevenLabs Summit London 2026, em conversa com o CEO da empresa, Mati Staniszewski, o veterano da Sequoia Capital, Doug Leone, articulou uma visão pragmática sobre o atual ciclo de inteligência artificial. Com um histórico que abrange de semicondutores à internet móvel — incluindo posições iniciais em gigantes como NVIDIA, Google e Nubank —, Leone rejeita a premissa de que a IA exige um novo manual de gestão. Em vez disso, ele foca no que chama de "leis da física" para startups: princípios estruturais que se escrevem à caneta, enquanto a estratégia tática permanece a lápis. A tese central é dura e direta: a maioria dos conselhos de administração é inútil, o alinhamento de interesses supera qualquer genialidade técnica, e a execução brutal nos primeiros anos vale mais do que qualquer tese de mercado formulada em salas de reunião.

A arquitetura do capital e a ilusão da estratégia

A visão de Leone sobre o desenvolvimento de startups subverte a obsessão contemporânea por narrativas estratégicas. Nos primeiros anos de uma operação, a execução implacável supera a estratégia. O ex-líder da Sequoia argumenta que ideias fundacionais não nascem de abstrações corporativas, mas de fricções reais experimentadas pelos fundadores. Essa abordagem contrasta fortemente com o comportamento de fundos durante o boom da Web3 e o atual frenesi da IA generativa, onde teses de mercado frequentemente precedem a identificação de um problema de usuário genuíno. Para Leone, a estratégia só ganha relevância quando o produto encontra tração orgânica; até lá, o foco deve ser a sobrevivência e a iteração rápida.

Essa mentalidade pragmática se estende à estruturação societária da empresa. Leone defende que o cap table deve ser arquitetado com o mesmo rigor aplicado ao desenvolvimento de um produto de software. Cada participação acionária concedida precisa refletir um alinhamento direto de interesses a longo prazo, evitando a diluição passiva que paralisa empresas em estágios de crescimento mais avançados. É uma engenharia de incentivos projetada para manter a equipe fundadora engajada por décadas, não apenas até a próxima rodada de captação.

O corolário dessa visão é a desmistificação do processo de abertura de capital. Enquanto o mercado frequentemente trata a oferta pública inicial como o ápice da jornada de captação de recursos, Leone categoriza o IPO estritamente como um evento de marca. Empresas maduras como a ServiceNow, que a Sequoia apoiou, não abrem capital para sobreviver, mas para sinalizar permanência institucional e atrair talentos corporativos de alto nível. A liquidez é um subproduto da construção de marca, não o objetivo primário da operação.

O choque de realidade nas avaliações de IA

O ciclo de capital focado em inteligência artificial opera hoje sob um excesso de liquidez que distorce fundamentos históricos. Leone é caracteristicamente contundente ao analisar as avaliações atuais das startups de IA, apontando um descolamento severo entre o capital investido e a capacidade real de geração de receita a curto prazo. Comparando o momento atual com a bolha das pontocom no final dos anos 1990, ele sugere que a infraestrutura tecnológica — empresas que treinam modelos base ou constroem hardware, como a própria NVIDIA — capturou o valor inicial, enquanto a camada de aplicação luta para justificar múltiplos astronômicos.

Nesse cenário de hipervalorização, o papel da governança corporativa também é questionado. Leone afirma que a esmagadora maioria dos membros de conselhos de administração adiciona zero valor às operações diárias de uma startup. Em vez de focar em conformidade burocrática ou aconselhamento genérico, um conselheiro útil na visão da Sequoia atua como um parceiro de recrutamento de alto nível e um filtro para o pensamento do fundador. A crítica atinge diretamente a cultura de capital passivo que proliferou na última década, onde investidores ocupam assentos em conselhos apenas para monitorar suas posições financeiras.

Ironicamente, o maior arrependimento na carreira de mais de três décadas de Leone não está em investimentos perdidos, mas em falhas de ambição. Ele admite que, em várias ocasiões, não incentivou os fundadores a sonharem grande o suficiente. Quando o alinhamento de interesses está garantido e o produto resolve uma dor real, o risco não é o excesso de capitalização, mas a limitação do escopo. Na era da IA, onde os custos marginais de software tendem a zero de forma mais agressiva do que na era mobile, a escala global deve ser a premissa desde o dia zero, não um objetivo secundário.

A análise de Doug Leone serve como um corretivo para a exuberância irracional que domina o Vale do Silício e mercados adjacentes. Ao tratar a construção de empresas como um exercício de física disciplinada — onde execução, arquitetura de capital e alinhamento de incentivos são leis imutáveis —, a Sequoia Capital reforça que a IA não anula as regras de negócios, apenas acelera seus resultados. O que permanece em aberto é quantas das atuais empresas de IA conseguirão sobreviver ao inevitável ajuste de avaliações quando o mercado exigir que a estratégia teórica se transforme em fluxo de caixa real.

Fonte · The Frontier | AI