A resiliência atual do mercado de ações americano, ancorada por um ganho de quase US$ 4 trilhões em valor de mercado no setor de semicondutores em poucas semanas, mascara duas vulnerabilidades estruturais crescentes: a inflação persistente impulsionada por conflitos geopolíticos e a potencial artificialidade das métricas de adoção de inteligência artificial corporativa. Em episódio recente do programa Prof G Markets, economistas e analistas dissecaram as forças divergentes que sustentam a economia e inflacionam o ecossistema de tecnologia.

O rali dos semicondutores e a armadilha do "token maxing"

O apetite do mercado pela cadeia de suprimentos de IA gerou uma expansão agressiva. Stacy Rasgon, diretor executivo da Bernstein Research, aponta que o índice de semicondutores subiu 65% no ano, um movimento justificado não por expansão de múltiplos — que chegaram a cair no acumulado do ano —, mas por uma explosão nas estimativas de lucro. A demanda, inicialmente concentrada em GPUs, espalhou-se para componentes de memória, equipamentos de fabricação e processadores centrais, impulsionada por um capex de provedores de nuvem que se aproxima de US$ 1 trilhão neste ano.

A sustentabilidade desses lucros, no entanto, depende da transição do treinamento de modelos para a inferência, ou seja, o uso real. Enquanto Rasgon cita o crescimento vertical de ferramentas como o Claude, da Anthropic, em tarefas de programação autônoma como prova empírica de demanda, o cenário corporativo interno de grandes empresas de tecnologia revela fissuras. Reportagem do Financial Times destacada no programa indica que funcionários da Amazon e da Meta estão engajados em "token maxing" — a geração de requisições inúteis de IA apenas para cumprir cotas internas e subir em rankings de adoção impostos por gestores.

Para contexto, a BrazilValley aponta que a Lei de Goodhart — citada no programa para ilustrar como metas de adoção destroem a validade da própria métrica — tem precedentes na era do software corporativo como serviço, onde a compra de licenças em massa frequentemente mascarava o baixo engajamento real dos usuários. O risco sistêmico atual é que a demanda trilionária por infraestrutura esteja sendo parcialmente extrapolada a partir de um engajamento fabricado.

A matemática da guerra e o risco no Federal Reserve

Fora da infraestrutura de tecnologia, os fundamentos macroeconômicos mostram deterioração. Justin Wolfers, professor de economia e políticas públicas da Universidade de Michigan, destaca que a inflação de 3,8% (com o núcleo em 2,8%) marca um momento em que os salários reais passaram a cair. O aumento é primariamente um problema de combustível, com a energia respondendo por 40% da alta mensal, um reflexo direto do fechamento do Estreito de Ormuz e das tensões com o Irã.

Wolfers argumenta que o mercado de ações já está pagando um pedágio silencioso pelo conflito. Utilizando o preço do petróleo como um índice de tensão geopolítica — que subiu cerca de 70% durante a guerra —, o economista calcula uma correlação negativa estatisticamente significativa que sugere que as ações americanas estão aproximadamente 5% mais baixas do que estariam em um cenário pacífico. O presidente dos EUA, segundo o programa, declarou publicamente que seu único foco é impedir o acesso do Irã a armas nucleares, isolando sua tomada de decisão dos impactos financeiros domésticos.

A resposta institucional a essa pressão inflacionária também levanta dúvidas. Wolfers critica a recém-confirmada nomeação de Kevin Walsh como diretor do Federal Reserve. Contrastando a postura de Walsh entre 2006 e 2011 — quando exigia juros altos em meio a um risco de deflação — com sua recente evasiva em sabatinas no Senado, Wolfers alerta que o diretor pode atuar de forma politizada, cortando juros prematuramente para favorecer o Executivo em um momento inoportuno para a economia.

O cruzamento dessas dinâmicas aponta para um mercado precificado para a perfeição, mas apoiado em pilares frágeis. Se o capex em IA desacelerar porque a adoção corporativa se provar mais rasa do que as métricas internas sugerem, o principal motor de liquidez atual irá falhar. Simultaneamente, se a inflação impulsionada por energia se infiltrar na psicologia econômica central, o espaço de manobra do Fed desaparecerá, expondo o verdadeiro custo de uma guerra prolongada e de uma bolha de infraestrutura.

Fonte · Brazil Valley | Finance