Em análise recente sobre o modelo econômico da Copa do Mundo de 2026, fica claro que o evento na América do Norte representa o ápice da estratégia corporativa da FIFA. Com a expansão para 48 países e 104 partidas distribuídas entre Estados Unidos, México e Canadá, a entidade projeta arrecadar cerca de US$ 13 bilhões no ciclo de quatro anos — um aumento de cinco vezes em relação ao torneio de 2006 na Alemanha. O pilar central dessa escalada financeira é a introdução inédita da precificação dinâmica nos ingressos, sujeitando os valores a flutuações em tempo real baseadas em oferta e demanda. O mercado secundário reflete essa inflação, com ingressos originais de US$ 446 chegando a US$ 22.316 na revenda. Enquanto a FIFA, operando tecnicamente como uma organização sem fins lucrativos, garante margens recordes e comissões sobre sua própria plataforma de revenda, o modelo impõe uma assimetria severa: a entidade retém as receitas diretas, enquanto os custos operacionais recaem pesadamente sobre os municípios anfitriões.
O repasse do risco e a ilusão do impacto econômico
Historicamente, sediar o torneio é um mau negócio público. Dados de 14 edições anteriores mostram que quase todos os países-sede registraram prejuízo, com a Rússia como única exceção. Para 2026, as projeções de impacto econômico divulgadas pelas cidades — como os US$ 3,3 bilhões esperados por Nova York, US$ 2,1 bilhões por Dallas e US$ 1 bilhão por Los Angeles — são frequentemente inflacionadas. Na prática, os municípios assinam contratos que os obrigam a custear segurança, transporte e as áreas de exibição pública (Fan Fests). O déficit financeiro potencial para uma cidade-sede é estimado entre US$ 100 milhões e US$ 200 milhões.
As tentativas de mitigar esse rombo já afetam a experiência do público. Cidades sob restrição orçamentária consideram cobrar entrada nas Fan Fests, originalmente concebidas como espaços gratuitos de celebração. No transporte, a inflação é agressiva: uma passagem de trem de Nova York para o estádio em Nova Jersey, que custaria US$ 13 em dias normais, foi precificada a US$ 100 para o evento. O governo federal americano liberou US$ 625 milhões para segurança nas 11 cidades-sede do país, valor considerado insuficiente para cobrir as demandas reais da operação, deixando o saldo para ser absorvido por patrocínios locais ou pelos contribuintes.
Barreiras políticas e o limite da demanda
A maximização dos preços colide com restrições geopolíticas. Políticas imigratórias associadas ao governo de Donald Trump criaram barreiras de entrada para torcedores de países específicos, gerando percepções de um ambiente hostil e motivando petições de boicote por parte de fãs internacionais. A relação entre Trump e o presidente da FIFA, Gianni Infantino — marcada pela criação de um prêmio de paz da entidade concedido ao político —, ilustra o alinhamento de interesses em torno do evento, descrito por Infantino como o equivalente a "104 Super Bowls", mas não resolve o atrito imigratório e logístico.
O resultado dessa combinação de ingressos inacessíveis (com opções subsidiadas de US$ 60 restritas a menos de 2% do total) e dificuldades de visto é o risco real de estádios vazios. Jogos entre seleções sem grande diáspora local na América do Norte podem sofrer com a falta de público. Para evitar que a transmissão televisiva — responsável por US$ 3,9 bilhões da receita da FIFA — exiba arquibancadas desocupadas, é provável que os preços dos ingressos sofram quedas abruptas às vésperas do torneio. Para contexto, a BrazilValley aponta que a dependência de direitos de transmissão como principal motor de receita é um padrão consolidado em ligas esportivas globais, o que torna a estética do estádio lotado um ativo essencial para a negociação de contratos futuros.
O torneio de 2026 testa os limites da elitização no esporte. Com a Major League Soccer (MLS) avaliada hoje em mais de US$ 20 bilhões, com 30 times e impulsionada por estrelas como Lionel Messi no Inter Miami, a FIFA utiliza a infraestrutura existente e o crescimento do futebol nos EUA desde 1994 para otimizar seus ganhos. No entanto, ao transformar o evento em um produto estritamente corporativo, a organização arrisca afastar a base de massa que sustenta a relevância cultural do esporte. Se a presença do público falhar, a conta final ficará com o poder público.
Fonte · Brazil Valley | Sports




