A resiliência do modelo de negócios da Zara repousa sobre uma anomalia estrutural no varejo de moda: a recusa à publicidade tradicional e a hiperconcentração logística. Enquanto a indústria pulverizou sua produção na Ásia e se casou com campanhas publicitárias de alto custo, a marca espanhola manteve sua espinha dorsal operacional perto de casa. Em vídeo publicado no canal Brazil Valley | Fashion em 4 de outubro de 2024, a operação da Inditex é dissecada para explicar como a companhia alcançou um valor de mercado de US$ 183 bilhões ao final de setembro, liderada por uma cadeia de suprimentos capaz de colocar uma peça recém-desenhada nas araras em apenas seis semanas, com um gasto em marketing inferior a 1% das vendas.

A gravidade logística e o varejo físico

A arquitetura da Zara subverte a norma do setor ao concentrar mais da metade de sua produção no que a empresa chama de mercados de "proximidade" — Espanha e países vizinhos. O transcript revela que essa decisão permite um ritmo de distribuição agressivo, com cerca de 80% das lojas da Inditex recebendo remessas a cada quatro ou cinco dias. O detalhe mais contraintuitivo dessa operação é a centralização absoluta: todas as peças produzidas no mundo são enviadas de volta a centros de distribuição na Espanha, como o de Madri, antes de serem despachadas globalmente de acordo com a demanda específica de cada ponto de venda.

Para contexto, a BrazilValley aponta que essa centralização, embora adicione uma etapa física ao trânsito da mercadoria, mitiga o risco de estoques ociosos que historicamente penalizam varejistas dependentes de longas e inflexíveis cadeias de suprimento transoceânicas.

Essa agilidade blinda a operação contra flutuações externas. Enquanto a concorrente sueca H&M culpou o clima pelas vendas fracas no início de junho de 2024, a Inditex manteve sua performance independentemente de eventos meteorológicos. Simultaneamente, a marca responde ao avanço de plataformas digitais ampliando seu espaço físico de varejo. O aumento da área de piso das lojas visa oferecer uma experiência tátil e de provador que rivais estritamente online não conseguem replicar, alimentada por gerentes de produto que enviam dados de tendências em tempo real para os designers na sede rural da empresa.

A pressão asiática e a conta ambiental

O domínio da Zara, que responde por 70% das vendas entre as seis principais marcas da Inditex, enfrenta agora a concorrência de gigantes chinesas como Shein e Temu. O vídeo destaca que essas empresas redefiniram o padrão de comparação no mercado americano, especialmente entre consumidores mais jovens. Como operam fora do escrutínio direto dos mercados de capitais — diferentemente de corporações de capital aberto como Zara e H&M —, essas novas entrantes sofrem menos pressão imediata de investidores sobre suas práticas ambientais.

O peso ambiental do fast fashion, termo cunhado pelo New York Times na abertura de uma loja da Zara em Nova York, tornou-se o calcanhar de aquiles do setor. Nas últimas duas décadas, a produção de roupas dobrou enquanto a população global cresceu apenas 30%. O transcript aponta que a moda responde por 20% das 300 milhões de toneladas de plástico produzidas anualmente, com os Estados Unidos gerando sozinhos 10 bilhões de quilos de resíduos têxteis por ano.

Em resposta, a Zara implementou serviços de reparo e firmou o compromisso de atingir emissões líquidas zero até 2040. A eficácia dessas medidas, no entanto, é questionada diante da cultura de hiperconsumo e do volume absoluto de roupas que a empresa produz anualmente.

O desafio de Marta Ortega, que assumiu a presidência não executiva da Inditex em 2022 com foco em iniciativas de alto padrão, é recalibrar uma máquina construída para a velocidade extrema. A Zara venceu a primeira era do fast fashion dominando a logística física e ignorando o marketing convencional. Agora, a companhia precisa provar que seu modelo de proximidade consegue absorver o choque de volume das plataformas asiáticas enquanto tenta conciliar a obsolescência programada de seus produtos com as inescapáveis exigências climáticas do século XXI.

Fonte · Brazil Valley | Fashion