Em entrevista recente ao apresentador Rafael Fulanete, Leonardo Vieira, cofundador da Traction, articulou a tese que levou a companhia a uma avaliação de US$ 800 milhões em sua última rodada de captação. A empresa opera no que Vieira define como "physical AI", combinando o desenvolvimento de hardware proprietário com algoritmos de inteligência artificial para monitorar ativos industriais. O foco da operação é resolver uma ineficiência histórica e onerosa do setor produtivo: o custo do maquinário parado. Com escritórios físicos estabelecidos em São Paulo, Atlanta, Cidade do México e Polônia, a companhia já concentra mais da metade de sua receita na América do Norte, provando a viabilidade de exportar tecnologia industrial para mercados desenvolvidos com faturamento em dólar.

O gargalo do hardware e o capital inicial

A fundação da Traction, iniciada no final de 2019 e atravessada pelas restrições da pandemia, esbarrou na resistência tradicional do venture capital. Vieira relata que o levantamento de capital inicial foi severamente dificultado pela natureza do negócio. Investidores habituados a avaliar rodadas de fintechs rejeitavam o modelo por envolver hardware, caracterizando-o como intensivo em capital, ou simplesmente por desconhecerem a magnitude do chão de fábrica de corporações como a Embraer, um de seus atuais clientes.

Sem tração inicial com fundos tradicionais, os primeiros cheques vieram de executivos C-level da própria indústria. Esses investidores conheciam a dor operacional de depender de técnicos que inspecionavam fisicamente centenas de máquinas e relatavam problemas de forma amadora, como o envio de fotos por grupos de Telegram. A construção da tecnologia começou de forma analógica: os fundadores compravam componentes eletrônicos no bairro de Santa Ifigênia, em São Paulo, para montar os primeiros sensores. A ambição global, no entanto, estava mapeada desde o primeiro dia. Vieira afirma que a equipe analisou as localizações globais da Siemens e registrou os domínios da Traction para os respectivos países, apostando que a dor da manutenção era uma constante universal.

Da correção empírica à inteligência preditiva

O modelo de negócios da companhia ataca a transição estrutural entre três estágios de manutenção industrial. A manutenção corretiva (o famoso "quebra-conserta") e a preventiva (baseada em cronogramas de manuais, similar à troca de óleo de um carro por quilometragem) são substituídas pela manutenção preditiva. Os sensores da Traction coletam dados de vibração triaxial, temperatura e corrente elétrica. A partir dessas métricas, os algoritmos prescrevem exatamente quando uma máquina vai falhar e qual ação mecânica deve ser tomada.

Vieira ilustra a evolução tecnológica comparando-a com as práticas empíricas de gerações anteriores. Os pais dos fundadores, que trabalharam a vida toda no setor de manutenção, costumavam usar chaves de fenda encostadas nas máquinas como estetoscópios para identificar anomalias sonoras. A digitalização desse conhecimento gerou resultados financeiros quantificáveis. No último ano, os clientes da companhia reportaram diretamente na plataforma uma economia de US$ 305 milhões em lucros cessantes e custos de hora parada evitados. A meta interna da operação para o ano corrente é atingir a marca de US$ 1 bilhão em economia gerada.

Para contexto, a BrazilValley aponta que a digitalização do chão de fábrica e a adoção de sensores em maquinário pesado representam uma das fronteiras mais complexas do software B2B, exigindo um grau de resiliência que a infraestrutura de TI tradicional raramente suporta. A trajetória da Traction demonstra que o desenvolvimento de hardware proprietário cria uma barreira de entrada robusta no mercado corporativo. Ao focar no monitoramento de ativos fixos industriais, a empresa encontrou um vetor de crescimento escalável em um setor historicamente resistente a inovações de ciclo rápido.

Fonte · Brazil Valley | Startup