Em painel recente sobre investimentos, Alexis Ohanian, fundador da 776, e Marc Lasry, CEO da Avenue, detalharam a transição das propriedades esportivas de projetos de vaidade para uma classe de ativos institucionais. Lasry destacou uma anomalia estrutural do setor: ao contrário de um produto de consumo que é descartado quando apresenta defeitos, os torcedores não abandonam uma equipe que perde jogos. Essa lealdade irracional cria uma sustentabilidade de valor incomparável para o ativo. Ohanian expandiu a tese, posicionando o esporte ao vivo como a última fronteira do entretenimento humano capaz de resistir à comoditização iminente gerada pela inteligência artificial, garantindo a atenção de milhões de espectadores em tempo real.

A matemática da vitória e a ineficiência inicial

A experiência de Lasry com o Milwaukee Bucks ilustra a economia contraintuitiva das franquias esportivas. Ele observou que, embora a compra de um time de basquete hoje possa gerar um retorno operacional modesto de 3% a 4%, o verdadeiro multiplicador financeiro reside na valorização da franquia, que está estritamente ligada ao desempenho esportivo. Lasry revelou que o Bucks operava com um déficit de US$ 100 milhões devido ao pagamento de multas por exceder o teto salarial, mas a franquia foi vendida por US$ 3,5 bilhões. Em contrapartida, o Charlotte Hornets gerava US$ 50 milhões de lucro, mas foi negociado por um valor inferior, de US$ 3 bilhões. A conclusão de Lasry é direta: a alocação de capital para vencer no esporte supera a austeridade operacional na construção do valor da empresa.

Ohanian, por sua vez, identificou uma ineficiência de mercado diferente ao analisar os esportes femininos. Ao observar o engajamento massivo de atletas como Alex Morgan e Megan Rapinoe em 2019, ele notou que uma equipe de Seattle havia sido avaliada em cerca de US$ 3,5 milhões. Reconhecendo uma desconexão severa entre o valor de marca individual das jogadoras e a capitalização das franquias, ele se tornou o investidor fundador do Angel City FC. Ohanian trata o valuation dessas ligas emergentes, incluindo seu recente investimento no League One Volleyball, como equivalentes a rodadas iniciais no capital de risco tradicional, projetando a construção de negócios bilionários a partir do zero.

O monopólio da atenção na era dos algoritmos

Para além da mecânica financeira imediata, Ohanian articula uma defesa macroeconômica para os ativos esportivos baseada na disrupção tecnológica. Ele argumenta que a inteligência artificial generativa criará em breve uma crise existencial para Hollywood e para a indústria musical, à medida que ferramentas de conversão de texto em vídeo e músicas geradas por IA reduzem drasticamente os custos de produção. Nesse cenário de abundância sintética, os esportes tradicionais permanecerão como o único mecanismo garantido para capturar a atenção simultânea de milhões de pessoas.

Consequentemente, Ohanian prevê que grandes conglomerados de tecnologia e streaming — citando nominalmente Google, Amazon e Netflix — precisarão adquirir propriedades esportivas como a âncora final para a atenção humana. Para otimizar essa transição, ele planeja operar suas próprias franquias com extrema eficiência de capital, utilizando IA e software para substituir grandes equipes administrativas por operações enxutas focadas em vendas corporativas e distribuição de conteúdo. Para contexto, a BrazilValley aponta que a entrada de capital institucional em ligas emergentes reflete um movimento mais amplo do mercado financeiro, que passou a enxergar a escassez do esporte ao vivo como um prêmio de liquidez em portfólios alternativos.

A evolução do esporte como tese de investimento altera fundamentalmente a capitalização do setor. Ao focar em ativos subvalorizados e em novas verticais olímpicas — como a liga de atletismo Athlos, fundada por Ohanian, ou o padel, citado por Lasry —, os gestores aplicam expectativas de hipercrescimento tecnológico a competições físicas. À medida que os algoritmos comoditizam o conteúdo digital, a imprevisibilidade visceral de uma partida ao vivo se consolida como a mercadoria mais valiosa da economia do entretenimento.

Fonte · Brazil Valley | Science