Em relato recente focado em sua trajetória nas águas de Byron Bay, na Austrália — especificamente no trecho entre Wategos e Main Beach —, a remadora e salva-vidas Heli articula a prática de esportes de longa distância não como uma busca atlética tradicional, mas como uma resposta de sobrevivência. Após o término de um relacionamento de vinte anos e um período de cinco anos imersa em estresse e disfunção, ela recorreu ao oceano como um refúgio tático. A exaustão física de remar deitada em uma prancha (prone board) operou como um mecanismo de transição. O que ela descreve como "o ano do choro e da remada" culminou na decisão de cruzar os 53 quilômetros do chamado "Canal dos Ossos", no Havaí, aos 48 anos de idade.

A mecânica da travessia e o fim do modo de sobrevivência

A decisão de enfrentar a travessia entre as ilhas de Molokai e Oahu em 2018 materializou-se após uma interação fortuita. Durante um treino, um desconhecido a desafiou para uma corrida informal. Ao vencê-lo, Heli ouviu um reconhecimento direto sobre sua dedicação à água. Quando mencionou a rota havaiana com a ressalva de que se considerava "velha demais" para a tentativa, a recusa do interlocutor em aceitar essa premissa serviu como um ponto de inflexão. Até aquele momento, as mensagens que recebia sobre sua identidade e ações eram predominantemente críticas e negativas.

Ao descobrir que uma garota de dezesseis anos havia completado a mesma rota em Molokai, Heli concluiu que seus próprios 48 anos de experiência lidando com adversidades lhe davam a bagagem necessária para suportar o trajeto. Para contexto, a análise editorial da BrazilValley aponta que a adoção de esportes de ultraendurance frequentemente atua como um vetor de processamento psicológico após rupturas severas, substituindo a imprevisibilidade de crises pessoais por métricas concretas de esforço físico. No caso de Heli, a visualização do fim da prova — imaginar o momento exato em que receberia um colar de flores (lei) no pescoço — foi a âncora mental que sustentou o esforço no canal havaiano.

O isolamento demográfico e o estigma da menopausa

Para além da travessia em si, o relato expõe uma assimetria demográfica clara no ambiente de trabalho costeiro. Atuando profissionalmente como salva-vidas, Heli observa a presença contínua de homens de sua faixa etária ou mais velhos exercendo a mesma função na praia, enquanto nota a ausência absoluta de mulheres em posições equivalentes. Ela patrulha ao lado de jovens com a idade de seus próprios filhos, descrevendo a dinâmica intergeracional como revigorante.

A remadora rejeita ativamente os estereótipos associados às mudanças hormonais da menopausa e ao acúmulo de estresse de sua vida pregressa. Ela enxerga essas expectativas sociais como limitadores inaceitáveis de sua trajetória. Heli argumenta que não está deliberadamente resistindo a convenções, mas apenas mantendo um apetite constante por crescimento pessoal. A prática não é vista por ela como uma obsessão cega ou um vício, mas sim como um imperativo comparável à alimentação: uma necessidade diária de buscar algo que a nutra fisicamente, prestando atenção a pequenas mudanças na luz da água e no movimento das ondas.

A trajetória documentada reforça a distinção entre a prática esportiva voltada para a competição institucional e aquela orientada pela necessidade de ancoragem pessoal. Ao declarar que não acredita em reencarnação, Heli calibra sua relação com o tempo de forma estritamente pragmática: a consciência de que a janela de vida está encurtando acelera sua urgência em permanecer na água. O mar deixa de ser apenas um cenário geográfico para se consolidar como o único espaço onde a idade e o estresse passado são convertidos em tração física contínua e imediata.

Fonte · Brazil Valley | Fashion