A transição estrutural do capital para fora das bolsas de valores e o imperativo tecnológico da inteligência artificial estão forçando gestoras tradicionais a redesenhar suas teses de crescimento. Em vídeo publicado no canal Brazil Valley | Finance em 16 de novembro de 2025, Jenny Johnson, CEO da Franklin Templeton, articula como a gestora de US$ 1,6 trilhão em ativos está navegando essa pressão imposta pela mudança de mercado. A executiva, que assumiu o comando da empresa fundada por sua família passando por um processo seletivo do conselho de administração, argumenta que o modelo de negócios do setor não pode mais depender exclusivamente das vias públicas de investimento. Sob sua gestão, marcada por dez aquisições, a firma migrou de uma operação tradicional para uma divisão equilibrada entre canais institucionais e de varejo, consolidando-se entre os dez maiores gestores de ativos alternativos.

A reconfiguração via mercados privados

Johnson aponta uma mudança secular na alocação de capital, impulsionada pelo recuo dos bancos tradicionais nas operações de crédito. Esse vácuo vem sendo ocupado por gestores de crédito privado, tornando a classe de ativos indispensável para a composição de portfólios. A CEO destaca que a oferta de crédito privado e renda fixa tradicional precisa caminhar junta nas prateleiras das gestoras para atender às novas demandas de rentabilidade.

A urgência em expandir o acesso aos mercados privados para investidores de varejo tem uma raiz matemática: Johnson ressalta que o número de empresas de capital aberto caiu pela metade nas últimas duas décadas. Para contextualizar editorialmente, a BrazilValley aponta que a assimetria de retornos entre mercados públicos e privados tem historicamente concentrado a geração de riqueza nas mãos de investidores institucionais e ultra-ricos, pressionando a indústria a criar novos veículos de liquidez para não perder relevância econômica.

O desafio técnico da democratização, segundo a executiva, é compatibilizar o perfil ilíquido desses ativos com as restrições de prazo das economias de pessoas físicas. A solução exige a estruturação de veículos criativos de investimento e a intermediação rigorosa de consultores financeiros, que devem alinhar a duração e o risco do produto ao perfil do cliente, evitando a exposição inadequada a prazos longos que o varejo não pode suportar.

IA como infraestrutura proprietária e convergência

Na frente tecnológica, a visão da Franklin Templeton afasta a ideia de que a inteligência artificial será uma commodity uniforme entre as instituições financeiras. Johnson argumenta que, embora as gestoras utilizem modelos fundamentais de mercado, a diferenciação competitiva dependerá estritamente do treinamento com dados próprios. A executiva enfatiza que o primeiro passo na construção de capacidades de IA é isolar e proteger os dados internos da companhia para evitar o vazamento de inteligência competitiva.

A aplicação prática dessa tecnologia já ocorre em duas frentes distintas dentro da gestora. No back-office, a automação visa reduzir os custos operacionais por meio da reconciliação de sistemas e dados — uma linha de despesa historicamente pesada para grandes instituições. Na linha de frente da pesquisa, a empresa desenvolve IA agêntica capaz de cruzar relatórios e avaliar, por exemplo, o impacto de tarifas sobre empresas farmacêuticas americanas versus europeias, gerando teses de investimento de forma autônoma para os consultores.

A CEO também projeta que a tecnologia blockchain seguirá uma trajetória de normalização institucional. Johnson compara o atual tratamento isolado dos ativos digitais à forma como a empresa lidava com a internet em seus primórdios, prevendo que a infraestrutura de registro distribuído convergirá naturalmente para as operações financeiras padrão, diluindo sua percepção como uma categoria separada e exótica.

A tese de Johnson ilustra um período de consolidação agressiva no ecossistema financeiro, onde a escala e a tecnologia se tornam os únicos escudos viáveis contra a compressão de margens. Ao fundir a expansão para mercados privados com o desenvolvimento de inteligência artificial baseada em dados proprietários, a Franklin Templeton tenta erguer barreiras de entrada contra firmas menores. O sucesso dessa estratégia dependerá de quão eficazmente a gestora conseguirá empacotar a complexidade e a iliquidez dos ativos alternativos para o varejo, sem importar riscos sistêmicos para balanços menos sofisticados.

Fonte · Brazil Valley | Finance