Em entrevista à RFI, a arquiteta e urbanista Vanessa Gambardela articulou como a reconfiguração do espaço público de Paris serve de fundação tanto para intervenções artísticas quanto para a resiliência climática. Ao detalhar o projeto "Multitudes" — concebido em parceria com Helena Caixeta e Luise Silva para a Nuit Blanche de 2026 —, Gambardela ilustra a transição de uma infraestrutura historicamente rodoviária para zonas de pedestres e ciclistas. A instalação luminosa e sonora, abrigada no túnel das Tulherias, opera como um microcosmo das políticas de mobilidade da capital francesa, evidenciando a intersecção entre o design de luz, a cenografia e a gestão de recursos urbanos esgotáveis.
A ressignificação da infraestrutura viária
O túnel das Tulherias, situado às margens do rio Sena, representa um ativo urbano conquistado para o uso público. Segundo Gambardela, o local, anteriormente restrito a automóveis, foi transformado em uma galeria de arte urbana com acústica singular, o que inspirou a criação do coletivo Pogo. A obra "Multitudes" propõe uma imersão que dialoga com o trânsito atual de pedestres e bicicletas, incorporando "toques de brasilidade" no design sonoro. A arquiteta destaca que essa liberação do espaço reflete as diretrizes de urbanismo da prefeita Anne Hidalgo, focadas na multiplicação de vias exclusivas para a mobilidade ativa.
Durante o evento, a intervenção das arquitetas mineiras compartilhará o perímetro com um projeto do artista francês JR, cuja ambientação sonora tem o envolvimento de Thomas Bangalter, do Daft Punk. A expectativa expressa por Gambardela é a criação de um percurso contínuo entre as obras, transformando a beira do Sena em um corredor de experimentação acústica e visual que capitaliza sobre a infraestrutura recém-devolvida à população.
Desimpermeabilização e economia circular
Além da intervenção cultural, a atuação profissional de Gambardela em uma agência francesa expõe a mecânica da adaptação climática europeia. A arquiteta atua como chefe de projetos focados em ciclovias, vegetalização e, criticamente, na desimpermeabilização de solos. Em empreendimentos como o parque linear Promenade Claude Lévi-Strauss, próximo à Biblioteca François Mitterrand, o foco reside na regeneração de terras outrora cobertas por cimento e frequentemente contaminadas por resíduos tóxicos. O solo fértil é tratado como um recurso esgotável, exigindo uma logística de economia circular para abastecer as novas áreas verdes e gerir as águas pluviais.
Ao comparar as dinâmicas entre França e Brasil — país de onde partiu inicialmente através do programa Ciência sem Fronteiras —, Gambardela aponta uma assimetria no financiamento. Ela argumenta que a França se destaca pela estrutura de subvenções estatais direcionadas ao respeito à flora local e à antecipação do aquecimento global, desde a escolha das espécies arbóreas até a readequação dos transportes. Para contexto, a BrazilValley aponta que a centralização administrativa europeia historicamente facilita a injeção direta de subsídios climáticos em projetos municipais de larga escala, um contraste operacional com o modelo federativo e as dimensões continentais brasileiras citadas na entrevista.
A convergência entre a instalação na Nuit Blanche e a engenharia de solos urbanos demonstra que a arte pública contemporânea em Paris deixou de ser meramente ornamental, passando a ocupar os vazios deixados pela retração do modelo rodoviário. O relato de Gambardela sinaliza que o futuro do desenvolvimento urbano depende de um alinhamento rigoroso entre vontade política, subsídios estruturados e a capacidade técnica de tratar elementos básicos — como a terra e a água — como infraestruturas críticas para a sobrevivência climática das metrópoles.
Fonte · Brazil Valley | Art




