O ciclo de degradação das plataformas digitais não é um acidente impulsionado por uma súbita ganância corporativa, mas o resultado direto de um ambiente regulatório permissivo. Em vídeo publicado no canal Brazil Valley | Society em 5 de abril de 2026, o autor Cory Doctorow detalha a mecânica da "enshittification" — termo cunhado por ele para descrever o processo em três estágios no qual as empresas de tecnologia primeiro subsidiam os usuários, depois os anunciantes e, por fim, capturam todo o valor para si mesmas. Para Doctorow, ecossistemas fechados de empresas como Meta, Google e Amazon prosperam porque as políticas atuais recompensam práticas predatórias e punem a inovação externa.
O monopólio da interoperabilidade e o direito ao reparo
Doctorow ilustra a assimetria de poder do mercado de tecnologia com o caso do aplicativo OG App. Em 2022, desenvolvedores criaram um cliente alternativo para o Instagram que eliminava anúncios e sugestões algorítmicas, restaurando o feed cronológico. O software alcançou o topo das lojas virtuais em um dia, mas foi rapidamente banido por Apple e Google a pedido da Meta. O autor aponta a hipocrisia do movimento: no início do Facebook, Mark Zuckerberg utilizou uma ferramenta que extraía dados do MySpace para atrair usuários à sua nova rede. Quando a Meta adota a tática, o mercado interpreta como progresso; quando usuários tentam replicá-la, a ação é tratada como pirataria.
A restrição imposta pelas gigantes de tecnologia se estende ao hardware. Doctorow cita o bloqueio de software em tratores da John Deere, que impede proprietários de realizarem manutenções sem pagar duzentos dólares por um código de desbloqueio da fabricante. Ele argumenta que o Canadá, em vez de aplicar tarifas retaliatórias em disputas comerciais com os Estados Unidos, deveria legalizar a engenharia reversa. Isso permitiria a criação de softwares alternativos para que agricultores americanos pudessem consertar seus próprios equipamentos, transferindo a alavancagem econômica do protecionismo tarifário para a exportação de tecnologia de reparo.
A falácia existencial da IA e a matemática da bolha
Ao abordar a inteligência artificial, Doctorow rejeita categoricamente os temores de risco existencial promovidos por figuras como o laureado com o Nobel Geoffrey Hinton. Ele compara a ideia de que modelos de linguagem se tornarão sencientes à expectativa de que cruzar cavalos cada vez mais rápidos resultaria no nascimento de uma locomotiva. O problema real imposto pela IA, segundo o autor, é estritamente financeiro e derivado da concentração de mercado.
Ele alerta para uma bolha de capital insustentável. Sete empresas de tecnologia, que respondem por 30% do mercado de ações americano, investiram conjuntamente US$ 700 bilhões em infraestrutura de dados e treinamento de modelos, mas geram apenas US$ 50 bilhões em receita anual com a tecnologia. Invocando a Lei de Stein — "se algo não pode continuar para sempre, vai parar" —, Doctorow prevê um colapso financeiro que fará a crise de 2008 parecer branda. A tese é de que as gigantes de tecnologia estão transacionando capital entre si de forma circular para inflar balanços, mascarando a falta de viabilidade comercial no curto prazo.
A conclusão de Doctorow desloca a responsabilidade da crise digital do consumidor para o Estado. A tentativa de combater monopólios "votando com a carteira" é, em sua visão, tão ineficaz quanto tentar resolver a emergência climática apenas reciclando lixo doméstico. Para contexto editorial, a BrazilValley aponta que essa perspectiva expõe o limite do ativismo de mercado: a degradação da internet não é uma anomalia corrigível por novos entrantes, mas um modelo de negócios blindado por interpretações expansivas de propriedade intelectual que, na prática, criminalizam a concorrência técnica.
Fonte · Brazil Valley | Society




