A tese central de Cory Doctorow é simples e incômoda: plataformas digitais não pioram por acidente. Elas seguem uma lógica de extração em três atos — primeiro capturam usuários com valor real, depois redirecionam esse valor para anunciantes e parceiros comerciais, e finalmente extraem o máximo possível para os próprios acionistas. O que o usuário experimenta como degradação gradual do serviço é, na leitura de Doctorow, o resultado previsível de incentivos estruturais, não de incompetência gerencial.
O ciclo de extração que Doctorow chama de lei
O termo enshittification — traduzido livremente como "merdicação" ou "degradação progressiva" — foi popularizado por Doctorow em artigo publicado na Wired em janeiro de 2023, e rapidamente se tornou vocabulário corrente em debates sobre regulação de tecnologia. A ideia não é nova: economistas de plataforma descrevem há décadas o problema do lock-in e da captura de valor. O que Doctorow acrescenta é uma narrativa causal com sequência definida, aplicável a casos concretos como o Facebook, o Google Search e a Amazon Marketplace.
No caso do Instagram — mencionado diretamente na conversa com Ian Hanomansing, da CBC — a pergunta "mas o app não está funcionando para mim?" é exatamente a armadilha que Doctorow quer desmontar. A plataforma entrega valor suficiente para manter o usuário preso, mas sistematicamente menos do que poderia, porque a diferença é capturada por anunciantes. O feed algorítmico que prioriza conteúdo patrocinado sobre conteúdo de pessoas que você escolheu seguir é a manifestação mais visível desse mecanismo.
Comparado ao ciclo de vida de monopólios industriais do século XX — ferrovias americanas que no auge do poder regulatório cobravam tarifas discriminatórias de pequenos produtores rurais —, o modelo de plataforma tem uma vantagem estrutural: os custos de saída para o usuário são muito mais altos, porque o valor acumulado (rede social, histórico, conteúdo) não é portável.
Regulação, Canada e a questão da IA
Doctorow, que é canadense, aponta o país como tendo uma janela de oportunidade regulatória — argumento que ressoa com o debate em curso no Parlamento canadense sobre a Lei C-18 e sobre portabilidade de dados. A lógica é que economias menores, sem campeões nacionais de plataforma para proteger, têm menos a perder ao impor regras de interoperabilidade e portabilidade que reduziriam o lock-in.
Sobre inteligência artificial — tema que ocupa os últimos dois minutos da entrevista —, a posição de Doctorow tende a ser consistente com seu arcabouço geral: o problema não é a tecnologia em si, mas quem controla os dados de treinamento, os modelos e os pontos de acesso. A concentração que produziu a enshittificação das redes sociais pode se repetir na camada de IA, especialmente se os modelos fundacionais permanecerem nas mãos de quatro ou cinco empresas com poder de mercado suficiente para ditar termos a desenvolvedores e usuários.
A frase que encerra a entrevista — "não é sua culpa" — é politicamente deliberada. Doctorow rejeita a narrativa de que usuários são responsáveis pela degradação do ambiente digital por escolhas individuais ruins. É uma crítica direta ao discurso de "higiene digital" que desloca responsabilidade sistêmica para o indivíduo.
O que fica sem resposta é a questão operacional: se a enshittificação é estrutural, remédios comportamentais — usar menos redes sociais, escolher plataformas alternativas — são insuficientes por definição. A teoria de Doctorow é diagnóstica e politicamente orientada, mas a terapêutica regulatória concreta permanece em aberto, tanto no Canadá quanto no Brasil, onde o debate sobre o Marco das Plataformas Digitais ainda busca coerência doutrinária.
Fonte · The Frontier | Society




