O design contemporâneo frequentemente flerta com a assepsia, mas para Erwan Bouroullec, um ambiente vazio e hermético é fisicamente nocivo. O designer francês argumenta que o espaço habitado exige estímulos materiais tangíveis para sustentar a ação e a vida humana. Em vídeo publicado no canal Brazil Valley Design Videos em 20 de março de 2026, Bouroullec expõe essa tese a partir de La Grange, uma propriedade rural na França que adquiriu após 35 anos vivendo em Paris. O local, originalmente um complexo agrícola abandonado, não opera apenas como refúgio, mas como um laboratório onde a estética polida de sua carreira encontra a aspereza da experimentação física.
A maldição da elegância e o acúmulo histórico
A intervenção em La Grange foi pautada pela preservação. Bouroullec e sua esposa optaram por adicionar uma nova camada de uso sem apagar os vestígios originais da estrutura. O designer defende que o melhor interior possível é aquele que demanda o mínimo de intervenção, preservando cada sinal do passado. Essa reverência à história material reflete sua visão sobre os objetos cotidianos, que ele descreve como "pequenos animais" — integrantes de uma rede que auxilia a movimentação e a ação humana no espaço.
Curiosamente, Bouroullec confessa um desconforto com o "bom gosto" ditado por estilos rígidos e admite sofrer do que chama de uma "maldição da elegância". Ele se define como um bom aluno, cuja produção tende naturalmente ao polido e ao educado. Para quebrar esse ciclo, ele busca o contraste, inserindo elementos de aspereza e sujeira em composições minimalistas. Para contexto editorial, a BrazilValley nota que essa fricção entre o design industrial altamente acabado e a rusticidade artesanal tem sido um vetor de inovação em estúdios europeus que tentam escapar da homogeneização estética impulsionada pela produção em massa.
Da geometria algorítmica às ferramentas seculares
O repertório material de Bouroullec em La Grange ignora hierarquias entre alta tecnologia e achados de mercado de pulgas. Ele exibe uma ferramenta de pescador, descrita como um objeto de luxo por carregar mil anos de conhecimento prático transferido entre gerações. Em paralelo, o designer explora a geometria gerada por programação computacional, criando regras simples que, ao serem repetidas mais de um milhão de vezes, geram resultados complexos que emulam formas encontradas na natureza.
Essa diversidade de métodos se traduz em suas colaborações industriais. Bouroullec cita uma cadeira desenvolvida para a Vitra, um processo de quase cinco anos focado na ergonomia — projetada "como uma bicicleta", sob a premissa de que o cérebro não relaxa se o corpo estiver mal posicionado. Ele também menciona a luminária "Map", que instiga a mente pela forma amassada, e o alto-falante Music Studio 5, criado para a Samsung a partir da universalidade do círculo. Em todos esses casos, ele argumenta que a beleza máxima de um objeto só é atingida quando ele é fisicamente moldado e desgastado pelo usuário ao longo do tempo.
A transferência de Bouroullec para o campo representa uma busca por formas ditadas pela necessidade e pela restrição de recursos. Em La Grange, o trator, a grama e os equipamentos de madeira são tratados como brinquedos em um campo de testes. A conclusão do designer é que não existe um inventor isolado; tudo é transformação contínua por meio da prática. O design, sob essa ótica, abandona a pretensão de pureza para abraçar a verdade rústica de um ambiente em constante uso.
Fonte · Brazil Valley Design Videos




