A premissa de Erwan Bouroullec é direta e não-negociável: espaços estéreis são prejudiciais ao corpo. A afirmação soa provocativa vinda de um designer associado à precisão formal — Bouroullec, ao lado do irmão Ronan, construiu reputação internacional em parceria com Vitra, Flos, Magis e Alessi, marcas que habitam o topo de um mercado que frequentemente confunde minimalismo com ausência. La Grange, sua casa em Borgonha, é a resposta material a essa confusão.
Restauração como Posição Intelectual
A escolha de Borgonha não é incidental. A região, conhecida por sua arquitetura rural vernacular — celeiros de pedra calcária, telhados de telha plana, estruturas que acumulam séculos de uso —, oferece a Bouroullec um vocabulário pré-existente com o qual dialogar, não apagar. La Grange (literalmente, "o celeiro") foi modernizada com intervenções deliberadamente contidas: o máximo de materiais originais foi preservado, mantendo o que o designer chama de "esqueleto" da edificação.
Essa abordagem contrasta com a tendência dominante nas reformas de propriedades rurais europeias de alto padrão, que frequentemente resultam em interiores que poderiam estar em qualquer bairro gentrificado de Berlim ou Londres. Bouroullec inverte a equação: a modernização serve à memória do lugar, não o contrário. É uma postura que aproxima seu trabalho residencial da filosofia de arquitetos como Sverre Fehn ou Peter Zumthor — figuras que tratam a pré-existência como dado projetual, não como obstáculo.
Os objetos listados na visita reforçam essa lógica de acumulação significativa: uma caixa geométrica de papel encontrada na Coreia, banquetas de madeira fabricadas pelo próprio Bouroullec em seu ateliê, uma pintura em grande formato de sua autoria. A casa não é showroom — é arquivo pessoal.
O Designer como Habitante, não como Curador
O que separa La Grange de outras residências de designers amplamente documentadas — a Casa Malaparte de Adalberto Libera, fotografada à exaustão, ou a casa-estúdio de Charles e Ray Eames em Pacific Palisades, preservada como museu desde 1988 — é a recusa à monumentalização. Bouroullec habita o espaço, produz nele, e os objetos que o cercam são funcionais antes de serem simbólicos.
A presença simultânea de peças próprias (a luminária MAAP para Flos, a cadeira MYNT para Vitra, o speaker Music Studio 5 para Samsung) e de achados casuais (um banquinho de pesca vintage, a caixa coreana) sugere uma curadoria que recusa hierarquias de origem ou prestígio. O objeto industrial convive com o artesanal, o autoral com o encontrado. Essa promiscuidade deliberada é, em si, uma declaração sobre o que o design deveria ser: não distinção de classe, mas estímulo contínuo.
A frase atribuída a Bouroullec — que o design é "incrivelmente obrigatório para a vida cotidiana" — ecoa uma tradição do pensamento europeu sobre objetos que vai de William Morris ao Bauhaus, mas com uma torção contemporânea: não se trata de reformar a produção industrial, mas de renegociar a relação pessoal com os objetos que já existem.
O que La Grange resolve — e o que a série da Wallpaper* raramente explicita — é a tensão entre a carreira pública de um designer de produto global e a vida privada que essa carreira financia e informa. A casa em Borgonha não é escapismo. É laboratório. O que permanece em aberto é até que ponto essa filosofia de estimulação espacial, articulada por alguém com acesso irrestrito à produção de design de ponta, pode informar contextos onde a escolha de objetos é limitada por renda, não por gosto.
Fonte · The Frontier Design Videos




