A inteligência artificial não chegará como um evento singular, um deus em um data center, mas como uma infraestrutura difusa e pessoal. Em análise publicada em agosto de 2026, Garry Tan, presidente da Y Combinator, argumenta que o futuro da produtividade e da autonomia profissional reside na 'IA Geral Pessoal' — um agente que opera na infraestrutura do indivíduo, aprende com seu contexto particular e executa procedimentos que ele mesmo escreveu. Tan estabelece uma dicotomia fundamental: de um lado, a IA corporativa, um produto que se aluga, como um chatbot que tem sua memória reiniciada ao fechar a aba; do outro, a IA pessoal, um ativo que se constrói, que se torna mais inteligente a cada dia de uso. A analogia histórica que ancora sua tese é a do filósofo Baruch Spinoza, que, segundo Tan, via Deus não como um monarca, mas como uma força imanente à natureza — assim como a IA, que já estaria 'na sala', disfarçada de infraestrutura.

A Física da Produtividade

O argumento de Tan é quantitativo. Ele afirma que sua própria produtividade como programador aumentou 400 vezes em relação a 2013, quando produzia cerca de 14 linhas de código por dia. Mesmo aplicando o que chama de 'a mais patológica penalidade por verbosidade', o ganho mínimo seria de 8x. Para ele, esse multiplicador não se restringe à programação, mas se aplica a todo trabalho de conhecimento. Na Y Combinator, Tan observa o fenômeno em escala de portfólio. Um quarto das empresas da turma de inverno de 2025 tinha bases de código 95% geradas por IA e, segundo ele, essa safra está a caminho de ser uma das mais rentáveis da história da aceleradora. Ele cita exemplos como a Emergent, que teria atingido nove dígitos de receita em oito meses com 15 funcionários, e a Retail, que alcançou US$ 60 milhões em receita anualizada com 40 pessoas — um nível de receita por funcionário que, segundo Tan, 'não existia antes'.

A mecânica por trás dessa nova física é a capacidade de transformar instruções em inglês em código executável. Tan afirma que 'markdown é código' e o modelo de linguagem é o compilador. Isso permite que qualquer profissional, mesmo sem conhecimento técnico, se torne um 'gerente de agentes'. O elemento central dessa arquitetura é o 'skill file' (arquivo de habilidade): um documento de texto que descreve um processo de forma clara o suficiente para que um agente de IA o execute. Na YC, equipes de finanças e eventos já estariam construindo seus próprios 'skill files' e agendando tarefas automatizadas, efetivamente programando sem escrever uma linha de código tradicional.

Posse, Extração e Conatus

A tese de Tan tem uma dimensão política explícita: a propriedade dos meios de cognição. Um 'skill file' não é apenas um documento, mas 'um pedaço da sua cognição, extraído da sua cabeça'. Ele ilustra com o exemplo de 'Maya', uma engenheira de suporte que, ao longo de dois anos, ensina 40 habilidades a seus agentes. Se esses arquivos pertencem a ela, sua carreira se compõe e ela pode levar essa expertise para outro lugar. Se pertencem à empresa, ela sofre uma 'extração' — seu julgamento continua a ser executado, mas sem ela. 'Seu trabalho se torna um skill file', adverte Tan. Para ele, essa é a versão moderna da oferta de 1.000 florins que a comunidade de Spinoza lhe fez para que ele se calasse.

Manter-se 'sob seu próprio poder', como Spinoza, é o cerne da proposta. Tan conecta essa autonomia ao conceito spinozista de conatus — o impulso de todo ser para perseverar e aumentar sua potência de agir. A IA pessoal, ao amplificar a capacidade de um indivíduo, gera 'alegria', definida por Spinoza como 'o sentimento de sua potência de agir aumentando'. O mecanismo para isso é a construção de uma 'biblioteca' ou 'cérebro' pessoal. Tan revela que seu próprio sistema, 'G-brain', contém cerca de 220.000 arquivos markdown com 25 anos de sua vida digitalizada. O valor, argumenta, não está no modelo de IA, que é uma commodity, mas no contexto — o conjunto de dados único que só o indivíduo possui. A posse e a custódia desse contexto são, para ele, o verdadeiro modelo de segurança.

O chamado à ação de Tan é direto. Ele argumenta que as barreiras para construir foram drasticamente reduzidas. O que antes exigia equipe, financiamento e permissão agora requer um laptop e o histórico de dados que cada um já possui. A dificuldade não está mais na execução, mas na iniciativa. Citando as palavras finais da Ética de Spinoza — 'Todas as coisas excelentes são tão difíceis quanto raras' —, Tan conclui com uma provocação: 'A dificuldade acabou de colapsar. A raridade, agora, depende de você'.

Fonte · Brazil Valley | Society