Em entrevista recente, Isay Weinfeld articulou uma visão de sua disciplina que contraria a busca pela assinatura autoral. Com um escritório que completa cinco décadas, Weinfeld rejeita a repetição de fórmulas — como replicar uma parede curva apenas por ter funcionado no passado — em favor de um modelo que trata a arquitetura como serviço prestado à visão do cliente. A recusa em habitar as próprias criações resume essa tese: ele afirma não conseguir morar em nenhuma das casas que projetou, por concebê-las como traduções das necessidades alheias, não de seu gosto pessoal. O arquiteto define-se como um "ouvidor", estruturando tecnicamente o desejo de quem ocupará o espaço.

A intersecção entre cinema e espaço

A aversão à especialização tem raízes na incursão prévia de Weinfeld pelo audiovisual. Nas décadas de 1980 e 1990, ao lado de Márcio Kogan, produziu filmes em Super 8 e 35 milímetros utilizando o humor como crítica social. O método já demonstrava inclinação para o inusitado: em um curta de 40 segundos, a dupla filmou a atriz Dina Sfat em silêncio, frustrando as expectativas do público. A adaptação da orelha do livro "E o Vento Levou", com o transformista Patrício Bisso, venceu o Festival de Gramado, culminando no longa "Fogo e Paixão", estrelado por Fernanda Montenegro e Tônia Carrero.

Weinfeld traça um paralelo direto entre a direção cinematográfica e a arquitetura. Ambas exigem a coordenação de grandes equipes e seguem ritos idênticos: do roteiro ao croqui, da filmagem à construção. Para ilustrar sua recusa em se limitar a um único nicho — desenhando teatros, salões de beleza ou residências —, ele invoca Stanley Kubrick. Assim como o cineasta transitou entre a ficção científica e o drama de guerra mantendo uma coesão invisível, Weinfeld busca uma arquitetura que provoque emoção espacial sem depender de um vocabulário visual engessado.

A carga histórica e o rigor do ofício

A trajetória profissional é informada por uma herança familiar densa. Nascido no Bom Retiro, em São Paulo, Weinfeld é filho de imigrantes judeus. Seu pai sobreviveu à Segunda Guerra escondido por quase três anos no porão de uma casa próxima a Cracóvia, pagando por proteção com a farinha do moinho da família. O arquiteto visitou as ruínas desse passado há cerca de dez anos, descendo ao buraco onde o pai se abrigou. Essa proximidade com a sobrevivência baliza sua forma de encarar o ofício, mantendo um distanciamento irônico das instituições.

Esse distanciamento se manifestou cedo: em seu trabalho de graduação, apresentou uma privada branca para representar o projeto de uma faculdade. Hoje, o rigor se volta para a relação com os clientes. O desenvolvimento de projetos residenciais exige um nível de intimidade que ele compara a sessões de análise, demandando que o próprio arquiteto recorra à psicanálise para cortar o cordão umbilical afetivo ao entregar uma obra. Para contexto, a BrazilValley aponta que a transição do "arquiteto-estrela" para uma postura de curadoria reflete uma maturação do mercado, que passa a valorizar a personalização sobre assinaturas estéticas monolíticas.

A consolidação da obra de Isay Weinfeld demonstra que a longevidade no design não exige a repetição de uma marca visual óbvia. Ao tratar o humor como quebra de expectativa e a escuta como método de projeto, ele propõe um modelo onde a vaidade cede espaço à utilidade. O desafio de sua prática não está em inventar novas geometrias, mas em orquestrar as demandas psicológicas de quem o contrata, provando que a sofisticação arquitetônica reside na capacidade de desaparecer dentro da própria obra.

Fonte · Brazil Valley | Architecture