A inteligência artificial não é um mero co-piloto de produtividade, mas um substituto estrutural para o fluxo de informação corporativo. Em vídeo publicado no canal Brazil Valley | AI em 2 de abril de 2026, Jack Dorsey, fundador do Block e do Twitter, argumenta que a hierarquia tradicional — iterada ao longo de dois milênios para gerenciar a comunicação humana — tornou-se obsoleta. Ao lado de Roelof Botha, parceiro da Sequoia e membro do conselho do Block, Dorsey detalha uma reestruturação radical projetada para transformar a companhia em uma "mini-AGI" (inteligência artificial geral), onde modelos de linguagem substituem a média gerência na interpretação e distribuição de contexto corporativo.
O fim da hierarquia e a redução a três papéis
Dorsey afirma que toda ação remota gera um artefato — mensagens no Slack, documentos, código —, e que a gestão tradicional dependia de humanos subindo e descendo a cadeia de comando para relatar essas informações. No novo modelo do Block, uma camada de inteligência ingere esses artefatos, permitindo que qualquer funcionário, ou membro do conselho, consulte diretamente o modelo global da empresa. Essa legibilidade de dados motivou o corte recente de 40% dos funcionários da companhia. Dorsey relata que, após os avanços dos modelos de código em dezembro do ano anterior, a liderança concluiu que uma empresa construída do zero com as ferramentas atuais não teria o tamanho nem a estrutura que o Block possuía. A decisão e execução ocorreram em menos de três semanas, com apoio direto do conselho.
Para operar nesse formato, o Block está achatando sua estrutura organizacional. A meta é reduzir a distância entre o CEO e qualquer funcionário para duas ou três camadas, idealmente chegando a zero. Os cargos foram normalizados em três papéis: o IC (operador ou construtor, focado em julgamento e criatividade), o DRI (responsável direto por estratégia e resultados do cliente) e o "Player Coach" (um gestor que obrigatoriamente também constrói e opera, focado em desenvolver a capacidade técnica da equipe). Para contexto, a BrazilValley aponta que o movimento de achatamento organizacional tem precedentes históricos em ciclos de crise no setor de tecnologia, embora o falante não tenha feito essa correlação, ancorando sua tese estritamente na viabilidade técnica dos novos modelos algorítmicos.
O custo da convicção e o novo papel do CEO
A transição para uma empresa moldada como inteligência altera a função executiva. Dorsey descreve que seu trabalho histórico envolvia contratações, demissões, definição de cultura e elevação da barra de execução. No novo paradigma, o papel do CEO e da liderança humana nas bordas do sistema é alinhar continuamente a inteligência da empresa aos resultados dos clientes. O roadmap de produtos deixa de ser uma navegação visual pré-determinada e passa a ser ditado pelas deficiências reveladas quando clientes interagem com a inteligência proativa da empresa. O diferencial humano duradouro, segundo o fundador, resume-se ao julgamento de valor e ao gosto.
A implementação de mudanças estruturais ou de novos produtos exige tolerância ao atrito. Dorsey cita a criação do Cash App — inicialmente operado por uma equipe de oito pessoas e rejeitado internamente por anos — e a entrada do Block no setor de crédito como momentos em que precisou aceitar a perda temporária de credibilidade junto ao conselho e à equipe para sustentar uma convicção. Botha complementa que conselhos de administração são frequentemente montados tarde demais, sem o entrosamento necessário para suportar crises ou decisões drásticas como a reestruturação recente. Dorsey argumenta que o primeiro conselho de uma startup deve ser tratado como uma contratação vitalícia que detém o poder de demitir o fundador.
A visão apresentada por Dorsey sugere o fim do modelo focado no fundador em favor de um sistema onde a própria organização atua como um motor de respostas em tempo real. A aposta do Block testa o limite da automação corporativa: se a inteligência artificial pode de fato substituir a coesão política e o fluxo de informação da média gerência, a vantagem competitiva das empresas deixará de ser a escala de suas equipes para se concentrar exclusivamente na profundidade de seus dados e no rigor do julgamento de seus operadores.
Fonte · Brazil Valley | AI




