João Bosco defende que a arte não pode ser julgada como um "ato institucional". Em declaração pública de 17 de julho de 2026, ao completar 80 anos, o compositor e violonista criticou o que chamou de "identitarismo exagerado", vindo principalmente "da própria esquerda", que tenta policiar a criação artística. O estopim, segundo ele, é a interpretação de canções como "Gol Anulado", sua parceria com Aldir Blanc. A letra, que descreve um homem agredindo a companheira após ela comemorar um gol do time rival — "tirei sem pensar o cinto e bati até cansar" —, hoje é vista como incitação à violência. Bosco rechaça a leitura: "Eu não aceito isso porque eu acho que isso é uma crônica". Ele argumenta que a obra existe em um "universo criativo, poético" e não é uma lei a ser obedecida, diferenciando o retrato ficcional da apologia.

A realidade como matéria-prima

A parceria com Aldir Blanc, iniciada quando o letrista viajou a Minas Gerais para conhecê-lo, foi fundamentada na premissa de "colocar no mesmo barco realidade e poesia". Bosco relata que a obra dos dois sempre se debruçou sobre o Brasil real, abordando a profunda desigualdade social onde, segundo ele, a renda se concentra em um percentual "que vai de 1 a 9, não chega nem a 10%". Figuras como o "balconista", o "boia fria" e o frequentador da "geral dos estádios" não eram escolhas panfletárias, mas um reflexo do fato de que essas pessoas eram "numericamente representativas".

A poética nascia da observação. A dupla nunca se furtou a retratar a paisagem social do país, mesmo quando o olhar era incômodo, como em canções que abordavam a violência urbana. Essa imersão na realidade, segundo Bosco, era a base de uma sintonia criativa que se estabeleceu "instantaneamente" e permitiu que a parceria fosse duradoura, com um entendimento mútuo desde o início.

Entre a censura e o sectarismo

A controvérsia atual ecoa acusações do passado. Na década de 1970, Bosco e Blanc foram criticados por serem "exageradamente intérpretes de uma violência que não existia". Bosco contrapõe, citando a canção "De Frente pro Crime" e a evolução da violência no país: "Olha o Brasil (...) Hoje você tem as milícias". Para ele, o artista não pode "fingir que está olhando para outro lugar", mas deve olhar para "seu lugar". Ele se posiciona ao lado de outros criadores que sofreram críticas semelhantes, como Chico Buarque e Gonzaguinha.

O que antes era censura do regime militar, hoje se manifesta, em sua visão, como um patrulhamento ideológico que ele classifica como sectário. "As pessoas estão muito loucas, muito exageradas, precisando ser um pouco melhor medicadas", afirma. Ele defende a necessidade de diálogo e tolerância contra uma visão radicalizada "entre o sim e o não, entre o bem e o mal", que, para ele, "não vai levar a lugar nenhum".

A defesa de Bosco transcende a polêmica de uma canção. É um argumento pela autonomia do objeto artístico e pela complexidade da crônica social. Ao insistir que sua obra não é um manual de instruções, mas um espelho — por vezes distorcido pela paixão dos personagens —, ele reivindica o espaço da ambiguidade e da ficção. Sua posição recusa a simplificação de reduzir a arte a uma mensagem literal ou a um manifesto político unívoco. Para ele, o esforço de compreensão é inegociável, tanto na arte quanto na vida. Como resume sobre o desafio de tocar uma peça complexa: "Ou é fácil ou é impossível. Impossível o cara que não tentou".

Fonte · Brazil Valley | Music