O colapso no sentimento do mercado em relação às empresas de software não é uma anomalia temporária, mas o reflexo de uma mudança estrutural na forma como a tecnologia opera. Em vídeo publicado no canal Brazil Valley | Technology em 2 de março de 2026, Eran Zinman, CEO da monday.com, abordou o que chamou de "apocalipse SaaS". Com a empresa avaliada em cerca de US$ 3,7 bilhões no mercado público — e possuindo US$ 1,5 bilhão em caixa contra uma receita recorrente anual (ARR) de US$ 1,3 bilhão —, Zinman reconhece que o mercado está precificando o negócio quase a zero. A resposta da companhia não é defensiva. O executivo anunciou o maior pivô da história da monday.com, abandonando a premissa de que o software serve apenas como um repositório onde humanos documentam o trabalho.
A ameaça da comoditização e a eficiência interna
Zinman refuta a ideia de que a programação em linguagem natural ("vibe coding") ou que modelos fundacionais como os da Anthropic e OpenAI irão canibalizar o software corporativo. Ele compara o temor atual ao surgimento da AWS, argumentando que a infraestrutura em nuvem multiplicou o ecossistema de software em vez de monopolizá-lo. No entanto, o CEO concorda com um cenário apocalíptico específico: a transformação de plataformas de interação em meros bancos de dados. Se a inteligência artificial passar a executar 70% a 80% do trabalho, ferramentas que exigem operação manual intensa perderão seu valor primário.
Para sobreviver a essa comoditização, a monday.com começou a aplicar uma automação agressiva em sua própria operação. Zinman afirmou que uma equipe de 100 profissionais de desenvolvimento de vendas (SDRs) foi inteiramente substituída por agentes na triagem inicial, sendo realocada para outbound. O tempo de resposta a clientes caiu de 24 horas para três minutos, com aumento nas taxas de conversão. Além disso, todo o suporte técnico passou a integrar IA, e os desenvolvedores adotaram ferramentas como Cursor e Claude Code.
Para contexto, a BrazilValley aponta que a pressão por eficiência operacional e a substituição de funções de entrada por agentes autônomos refletem um movimento mais amplo do mercado de tecnologia, que tenta equilibrar margens em um ambiente de capital restrito e novas capacidades algorítmicas, embora o executivo não tenha feito paralelos com cortes de outras empresas específicas no escopo de sua reestruturação de vendas.
A transição para consumo e colaboração autônoma
A mudança operacional interna é apenas o prelúdio para uma reformulação completa do produto e do modelo de negócios. Zinman delineou que a monday.com deixará de ser vendida primariamente por assentos para adotar um modelo híbrido, caminhando em direção a uma precificação 100% baseada em consumo. A proposta de valor central deixará de ser a organização visual de tarefas para se tornar o ambiente padrão onde humanos e agentes orquestram fluxos de trabalho.
Nesse novo formato, os agentes produzirão tabelas, documentos e arquivos, enquanto os humanos revisarão os resultados e criarão novos agentes dentro do mesmo espaço. Adicionalmente, a empresa está construindo ofertas verticais de CRM e atendimento ao cliente totalmente baseadas em agentes, buscando competir diretamente com líderes estabelecidos como Salesforce e ServiceNow. Zinman argumenta que o campo de jogo foi nivelado, pois todas as empresas de software terão que provar sua capacidade de adaptação à nova arquitetura.
O pivô da monday.com ilustra a encruzilhada do mercado de software corporativo. A transição de um modelo de assentos, que se beneficiou historicamente do crescimento desenfreado no número de funcionários das empresas, para um modelo de consumo baseado na produção de agentes exige uma reengenharia profunda. A aposta de Zinman é que a demanda por software crescerá exponencialmente à medida que a tecnologia assumir a execução do trabalho, mas apenas as plataformas que conseguirem orquestrar essa nova força de trabalho algorítmica capturarão o valor gerado.
Fonte · Brazil Valley | Technology




