Em vídeo publicado no canal Brazil Valley | Architecture em 22 de janeiro de 2026, Fanny Sole, cofundadora da galeria Willow and Grove, articula uma visão onde o consumo de arte e o design de interiores se distanciam da validação institucional para priorizar a conexão emocional. Após quase uma década atuando como especialista em arte impressionista e moderna na Christie's, com passagens por Paris, Nova York e Londres, Sole aplica em seu próprio apartamento na Île Saint-Louis a mesma tese que fundamenta seu negócio: a rejeição de ambientes padronizados em favor de uma curadoria idiossincrática.

A desinstitucionalização do consumo de arte

A transição de Sole do mercado de leilões de alto padrão para o empreendedorismo ocorreu em 2017, quando fundou a Willow and Grove ao lado de Olivia Defet, ex-colega da Christie's. A galeria foi estruturada para dialogar com um público que frequentemente percebe o mercado de arte tradicional como intimidador e frio. Sole argumenta que o objetivo da operação é oferecer obras com preços acessíveis e criar um ambiente seguro, onde novos colecionadores possam desenvolver seus próprios critérios sem a pressão do jargão técnico.

Para a fundadora, a formação de uma coleção não exige orçamentos monumentais. Ela relata que seu próprio acervo começou com compras diretas de artistas no início de sua carreira. A filosofia de seleção da galeria espelha essa trajetória: o portfólio inicial foi composto pelos mesmos artistas que Sole e sua sócia já colecionavam em suas casas. A empresária defende que a conexão com uma obra de arte dispensa teorias complexas; o impacto emocional e a identificação pessoal devem preceder a narrativa mercadológica.

Para contexto, a BrazilValley aponta que o movimento de ex-executivos de instituições tradicionais fundando plataformas voltadas à democratização do acesso reflete uma mudança estrutural no mercado de bens de luxo e cultura. O modelo busca capturar consumidores que possuem capital e interesse, mas rejeitam a fricção e a opacidade dos canais estabelecidos.

O espaço físico como manifesto estético

O apartamento de Sole, localizado em um edifício do século XVII no centro de Paris, materializa essa recusa à homogeneidade. Durante a reforma iniciada em 2018, ela e o marido optaram por preservar características originais da estrutura, como portas antigas, vigas aparentes e persianas internas de madeira, integrando-as a um acervo que mistura períodos e estilos. O resultado é um ambiente que abriga desde móveis utilitários anônimos de antigas fábricas e ateliês de costura até peças assinadas por nomes como George Nelson e Charlotte Peron.

A rejeição às tendências efêmeras é um ponto central na visão de Sole sobre moradia. Ela critica espaços montados exclusivamente para refletir catálogos ou revistas, argumentando que a preocupação em agradar a terceiros resulta em ambientes padronizados e tristes. Em vez disso, a curadoria do apartamento incorpora fotografias vintage anônimas, cerâmicas coloridas dos anos 50 e 60, tapetes kilim e peças de design contemporâneo, como as esculturas de Patricia Disney e quadros de Fernando Daza, artistas representados por sua galeria.

A abordagem de Sole ilustra como a curadoria contemporânea evoluiu de um exercício de acumulação de status para uma prática de expressão individual. Ao fundar a Willow and Grove e projetar seu espaço pessoal sob a mesma lógica, ela demonstra que o valor do design e da arte reside na utilidade emocional e na autenticidade. O desafio contínuo para negócios que operam nessa intersecção é escalar a acessibilidade sem perder a singularidade que atrai o consumidor moderno.

Fonte · Brazil Valley | Architecture