A nuvem não é etérea; ela é construída com concreto, aço, geradores a diesel e bilhões de litros de água. Em vídeo publicado no canal Business Insider em 12 de setembro de 2025, um levantamento inédito mapeou 1.240 data centers nos Estados Unidos — quase quatro vezes o número registrado em 2010. Impulsionada pela corrida da inteligência artificial, a infraestrutura física que sustenta os algoritmos de empresas como Amazon, Microsoft, Google e Meta está se expandindo em um ritmo superior a duas novas instalações por semana. O mapeamento, construído a partir de pedidos de registros públicos de qualidade do ar para geradores de emergência, revela um setor marcado pela opacidade, onde corporações frequentemente utilizam empresas de fachada e acordos de confidencialidade para ocultar a escala de suas operações e o impacto direto nas comunidades.

A pressão sobre a matriz elétrica e recursos hídricos

O custo operacional da inteligência artificial exige um volume de recursos sem precedentes. O Departamento de Energia dos Estados Unidos estima que o consumo elétrico impulsionado pela IA pode em breve representar 12% de todo o uso de eletricidade do país, um salto em relação aos pouco mais de 4% registrados em 2023. O levantamento aponta que a rede de data centers monitorada poderá em breve consumir mais energia do que a Polônia consumiu em 2023, com projeções indicando o uso de até 600 terawatt-horas até 2028. Para sustentar essa demanda, concessionárias de energia estão revertendo promessas climáticas: em Nebraska, o fechamento de usinas a carvão foi adiado e novas usinas a gás natural foram aprovadas para lidar com os picos de demanda gerados por um campus da Meta.

O estresse hídrico é um vetor igualmente crítico. Até 43% dos maiores data centers estão localizados em áreas de alta ou extrema escassez de água. No Arizona, estado que sofre com secas severas e a redução do fluxo do Rio Colorado, documentos mostram que a Microsoft planejou o uso de 1 milhão de galões de água por dia para cada edifício de um de seus complexos. A compensação prometida pelas big techs até 2030 baseia-se majoritariamente em um sistema de créditos de água e energia, terceirizando a mitigação enquanto o consumo físico local permanece alto.

Subsídios públicos e a conta da infraestrutura

Apesar da pressão sobre a rede, governos locais continuam oferecendo incentivos massivos para atrair essas instalações. O levantamento rastreou 37 estados americanos que oferecem programas de isenção fiscal para data centers. Na Virgínia — estado por onde trafega um terço do tráfego global de internet e cujos 329 data centers consumiram quase um quarto da eletricidade estadual em 2023 —, projetos do setor receberam quase US$ 1 bilhão em isenções fiscais apenas no ano fiscal de 2023. Em Ohio, a Meta utilizou uma LLC desconhecida chamada Sidecat para garantir 100% de isenção de impostos sobre a propriedade por 15 anos, economizando cerca de US$ 60 milhões.

Para contexto, a BrazilValley aponta que a dinâmica de conceder pesados subsídios fiscais sob a promessa de desenvolvimento econômico local é uma prática histórica em diversos setores industriais, mas que no caso da expansão da infraestrutura de nuvem, a relação custo-benefício para os municípios apresenta contornos específicos. A análise do Business Insider revela que mesmo os maiores data centers empregam menos de 150 trabalhadores permanentes, com alguns operando com apenas 25 funcionários. Paralelamente, os custos de atualização da rede elétrica correm o risco de serem repassados à população. Na Virgínia, a Dominion Energy indicou a necessidade de dobrar sua geração de eletricidade até 2039, uma expansão estimada em até US$ 103 bilhões que pode aumentar as contas de luz residenciais em até 50%.

A expansão da inteligência artificial está forçando um choque de realidade sobre os limites físicos da infraestrutura global. Com investimentos de capital previstos para 2025 na casa de dezenas de bilhões — US$ 80 bilhões pela Microsoft, US$ 75 bilhões pelo Google e US$ 64 bilhões pela Meta —, a construção desses pólos continuará acelerada. O desafio não resolvido é como o mercado e os reguladores equilibrarão o desenvolvimento tecnológico com a exaustão de recursos naturais, a perturbação sonora das comunidades locais e a fatura bilionária da adequação da rede elétrica.

Fonte · Brazil Valley | Technology