A ausência de um registro oficial sobre data centers nos Estados Unidos não é uma lacuna burocrática — é uma escolha que beneficia a indústria. O Business Insider levou meses para compilar o primeiro mapa abrangente dessas instalações, cruzando registros públicos fragmentados, imagens de satélite e documentos regulatórios. O resultado expõe uma infraestrutura que cresceu na sombra da regulação: centenas de galpões de 25 metros de altura espalhados pelo país, sem contabilidade pública de consumo energético ou hídrico, e sem obrigação de transparência perante as comunidades vizinhas.

Virgínia e o peso de um terço da internet

O condado de Loudoun, na Virgínia — conhecido como "Data Center Alley" — concentra a maior densidade de servidores do mundo. Um terço de todo o tráfego de internet global passa por essa faixa de terra no norte do estado. A escala não é acidental: décadas de incentivos fiscais agressivos, acesso a fibra óptica de longa data e proximidade com Washington moldaram o ecossistema. O resultado é uma paisagem onde residentes como Carlos — identificado pelo Business Insider pelo primeiro nome — convivem com o zumbido contínuo de sistemas de resfriamento que não param nem à noite.

Essa concentração geográfica cria uma vulnerabilidade sistêmica raramente discutida: uma falha de infraestrutura elétrica ou hídrica na Virgínia teria impacto imediato em escala global. Comparativamente, a dependência da internet mundial de um único corredor americano é análoga à concentração de semicondutores em Taiwan — um risco geopolítico e físico que o mercado ainda precifica mal.

A pressão sobre a rede elétrica local já forçou concessionárias a revisar cronogramas de aposentadoria de usinas a carvão e gás. Estados que haviam assumido compromissos de descarbonização até 2030 estão recuando silenciosamente, sem anúncio formal, diante da demanda crescente dos operadores de data centers.

Arizona e o paradoxo da água em zona de seca

No Arizona, estado em regime de seca crônica desde os anos 2000, algumas instalações consomem até um milhão de galões de água por dia para refrigeração evaporativa dos servidores. A escolha do Arizona por grandes operadores — entre eles empresas que atendem diretamente às plataformas de IA das big techs — foi impulsionada por incentivos fiscais estaduais e pelo custo mais baixo do terreno, não por disponibilidade hídrica.

A tensão é estrutural. O Rio Colorado, que abastece o Arizona e outros seis estados americanos, opera abaixo da capacidade histórica desde 2000. O Lago Mead, principal reservatório do sistema, atingiu níveis críticos em 2022. Introduzir nesse ecossistema instalações que rivalizam em consumo hídrico com fazendas de médio porte é uma aposta que os governos estaduais fizeram sem modelagem pública de longo prazo.

A personagem Donna, mencionada no capítulo final do vídeo, sintetiza a dimensão humana do dilema: moradora próxima a uma instalação, ela enfrenta a escolha entre aceitar os impactos locais ou se engajar em processos regulatórios que historicamente favorecem os operadores. Não há, nos EUA, um marco federal que obrigue data centers a divulgar consumo de água ou energia — lacuna que a União Europeia começou a fechar em 2024 com o European Green Deal Data Act.

O que está em jogo não é apenas a conta de luz ou o nível dos aquíferos. É a ausência de governança proporcional ao tamanho da infraestrutura. A IA generativa dobrou a demanda por capacidade computacional em menos de três anos, mas o arcabouço regulatório americano permanece calibrado para uma era anterior ao ChatGPT. Enquanto isso, as metas climáticas dos estados são a primeira baixa visível dessa equação — e provavelmente não serão a última.

Fonte · The Frontier | Technology