A fundação da OpenAI não se baseou em um avanço técnico de seu CEO, mas em uma manobra retórica: a mercantilização do medo existencial. Em vídeo publicado no canal Brazil Valley | AI em 10 de abril de 2026, os jornalistas Ronan Farrow e Andrew Marantz detalham como Sam Altman consolidou poder ao convencer a elite da pesquisa em inteligência artificial de que ele era o único líder capaz de evitar o apocalipse. A investigação, que culminou em um artigo de 16 mil palavras para a The New Yorker, desconstrói a imagem de Altman. O executivo emerge não como um cientista da computação, mas como um negociador camaleônico que utilizou a promessa de segurança absoluta para recrutar talentos e atrair capital, apenas para abandonar essas premissas quando a escala comercial exigiu.
A retórica do medo como ferramenta de captação
Desde antes da existência da OpenAI, Altman estruturou sua narrativa em torno de paralelos históricos de peso. Em 2015, ele enviou um e-mail a Elon Musk propondo um "Projeto Manhattan para a IA", comparando-se constantemente a Robert Oppenheimer. Essa tese serviu como o principal motor de recrutamento da empresa. Pesquisadores de ponta, frequentemente aterrorizados com o potencial da tecnologia que desenvolviam, foram atraídos pela promessa de uma estrutura sem fins lucrativos. O cientista Ilya Sutskever chegou a recusar uma oferta de US$ 6 milhões anuais do Google para se juntar aos "mocinhos" da OpenAI, focado em resolver o problema do alinhamento antes que uma IA desalinhada pudesse aniquilar a humanidade.
A eficácia dessa abordagem residia no contraste com figuras agressivas como Musk ou Jeff Bezos. Altman apresentava-se de forma sutil, descrito por fontes como o "Michael Jordan da escuta", capaz de olhar nos olhos de interlocutores distintos e refletir exatamente o que queriam ouvir. No entanto, a flexibilidade dessa postura revelou contradições severas. Quando a Anthropic recusou um contrato com o Pentágono por preocupações com vigilância em massa e armas autônomas, Altman declarou apoio público às linhas éticas da concorrente. Simultaneamente, nos bastidores, a OpenAI negociava com o governo americano para assumir exatamente o mesmo contrato militar.
O padrão de ambiguidade e a escala do capital
A demissão de Altman pelo conselho em 2023 não foi motivada por um único evento catastrófico, mas por um acúmulo de comportamentos que levaram membros a classificá-lo como não consistentemente franco, com dezenas de fontes o descrevendo como "mentiroso patológico". Os memorandos internos de Sutskever documentavam a crença de que Altman não deveria ter o dedo no botão de uma tecnologia transformadora. Entre os episódios relatados, executivos da empresa chegaram a debater a ideia de leiloar a inteligência artificial geral (AGI) para o maior lance internacional, colocando Estados Unidos, Rússia e China em disputa — uma proposta que críticos internos classificaram como insana por potencialmente entregar o controle a Vladimir Putin.
A postura transacional de Altman acelerou-se junto com a necessidade de infraestrutura. A empresa atingiu uma rodada de financiamento de US$ 122 bilhões e planeja um data center nos Emirados Árabes Unidos que consumirá a mesma energia que a cidade de Miami e terá sete vezes o tamanho do Central Park. Críticos apontam que essa busca por capital concentra poder tecnológico sensível nas mãos de autocracias. Para contexto, a BrazilValley aponta que a transição de uma entidade sem fins lucrativos para um modelo de hiperescala reflete um padrão histórico no Vale do Silício, onde o idealismo das fases iniciais frequentemente cede lugar ao pragmatismo exigido por investidores, embora o vídeo não faça esse paralelo temporal. No campo corporativo, a ambiguidade de Altman persistiu: a OpenAI firmou um acordo de agentes corporativos com a Amazon que executivos da Microsoft afirmam violar diretamente a exclusividade de seus modelos fundacionais.
A trajetória de Altman ilustra a mutação do setor de inteligência artificial. O problema do alinhamento, antes tratado pelo próprio CEO como uma questão de sobrevivência civilizatória, foi rebaixado a um mero inconveniente comercial. Ao reescrever a narrativa — passando de doador democrata que comparava Donald Trump a Hitler para um aliado que garante projetos de infraestrutura no primeiro dia do novo governo —, Altman prova que sua verdadeira inovação não é algorítmica. É a capacidade de navegar em um vácuo de regras, operando uma tecnologia de impacto global sem se prender a nenhuma linha de base de verdade.
Fonte · Brazil Valley | AI




