A próxima fronteira da tecnologia deixou de ser puramente digital para exigir uma execução industrial pesada. Em vez de focar apenas em software, o capital e a engenharia estão se voltando para a automação física e a infraestrutura de dados. Em vídeo publicado no canal Brazil Valley | Podcast em 17 de março de 2026, Travis Kalanick e Michael Dell detalharam como estão estruturando essa transição. Kalanick revelou o escopo de sua nova holding focada em automatizar o mundo físico, enquanto Dell expôs a explosão de demanda por hardware corporativo para sustentar a inteligência artificial. A tese central que une as duas operações é clara: a era dos "bits" está cedendo espaço para a era dos "átomos", exigindo novos paradigmas de manufatura, logística e processamento local.
A arquitetura de um computador de átomos
Kalanick anunciou o fim do período de stealth de sua operação, agora batizada sob o guarda-chuva "atoms". O fundador da Uber argumenta que a digitalização do mundo físico exige a construção de um "computador baseado em átomos". No modelo mental apresentado por ele, a manufatura atua como a CPU (manipulando átomos), o mercado imobiliário funciona como o armazenamento, e a logística de transporte serve como a rede. Para contexto, a BrazilValley aponta que essa visão expande a lógica de otimização de rotas e ociosidade que marcou a década passada em mobilidade urbana, aplicando-a agora a cadeias industriais complexas.
A primeira iteração dessa infraestrutura foi focada em alimentação. Originalmente chamada de City Storage Systems, a empresa opera sob marcas genéricas como CloudKitchens nos Estados Unidos, Kitchen Valley na Coreia, Nama no Oriente Médio e Cinaas na América Latina. O objetivo, segundo Kalanick, é tornar a entrega de refeições tão eficiente que seu custo se aproxime ao de compras em supermercados. No entanto, o escopo da "atoms" foi ampliado para a mineração e o transporte. Kalanick revelou a aquisição iminente da Pronto, uma startup de São Francisco focada em automatizar equipamentos de mineração, permitindo operações em locais inóspitos com menor custo de mão de obra e maior segurança.
Ao analisar o ecossistema de inteligência artificial física, Kalanick cravou que a Tesla é o "Google desta era". Ele destacou que a montadora domina uma pilha tecnológica complexa que inclui desenvolvimento imobiliário, química e manufatura. Sobre a corrida dos veículos autônomos, o executivo avaliou que a Waymo está à frente em provas de conceito, mas enfrenta desafios de manufatura e escala, enquanto a Tesla opera no "modo difícil" focado em visão computacional pura.
A explosão das fábricas de inteligência artificial
Se Kalanick foca na automação de indústrias pesadas, Michael Dell detalhou a infraestrutura de hardware necessária para processar essa nova realidade. O fundador da Dell Technologies projetou uma receita de US$ 140 bilhões para sua empresa neste ano, impulsionada por uma demanda sem precedentes por servidores. O braço de infraestrutura da Dell cresceu 73% no último trimestre, com projeção de dobrar o crescimento no período seguinte. A empresa já implementou mais de 4.000 "Dell AI factories" em clientes corporativos.
Dell observou uma mudança na arquitetura de computação. Embora a nuvem pública tenha dominado a última década, o custo elevado de processamento está levando as empresas a buscarem soluções locais. A inteligência artificial e a inferência de dados estão se movendo para a borda (edge), rodando próximos de onde os dados são gerados — seja em fábricas, hospitais ou operações logísticas. O executivo destacou parcerias com plataformas como Hugging Face e a otimização de modelos de código aberto, como o Gemma do Google, para rodarem eficientemente em máquinas menores e locais.
A adoção corporativa, no entanto, enfrenta atritos. Dell afirmou que a barreira para a implementação de IA não é tecnológica, mas cultural e de liderança. Ele estima que apenas 10% a 15% das grandes empresas entenderam como reestruturar seus processos em torno dessas novas ferramentas. As companhias que não conseguirem se adaptar rapidamente enfrentarão a concorrência de negócios nativos em inteligência artificial, que já nascem operando com maior velocidade, inovação e custos reduzidos.
A interseção entre as visões de Kalanick e Dell ilustra uma mudança no centro de gravidade do setor tecnológico. A inovação agora exige capital intensivo, licenciamento de terras, capacidade energética massiva e cadeias de suprimentos globais. Não por acaso, ambos os executivos destacaram o ambiente pró-negócios do Texas como fundamental para essa fase de expansão, contrastando com as restrições regulatórias da Califórnia. O desafio da próxima década não será apenas escrever software mais inteligente, mas sim construir a infraestrutura física e energética capaz de suportá-lo no mundo real.
Fonte · Brazil Valley | Podcast




