A transição de empresas de capital aberto para um modelo de gestão focado puramente em resultados — o chamado "founder mode" — exige a destruição de convenções corporativas. Para Kaz Nejatian, CEO da Opendoor e ex-COO da Shopify, a distinção central entre fundadores e gestores profissionais reside na lealdade: enquanto executivos tradicionais protegem processos e aparências, operadores agressivos priorizam a verdade e a entrega. Em vídeo publicado no canal Brazil Valley | Startup em 12 de março de 2026, Nejatian argumenta que a inércia corporativa mascara o declínio lento das organizações. Sua tese rejeita a tentativa de equilibrar fraquezas pessoais. Em vez de focar em se tornar um executivo generalista, ele delega o desenho de processos para focar exclusivamente na execução de produto e na alocação de risco, redefinindo o papel do CEO em uma estrutura pública.

A arquitetura da refundação corporativa

O movimento de Nejatian para assumir a Opendoor ilustra sua tese de "refundação". Acompanhado por Keith Rabois e pelo fundador original da empresa, Eric Wu, ele estruturou a tomada de controle da companhia com a premissa de que turnarounds tradicionais falham por excesso de incrementalismo. A execução foi cirúrgica: da equipe executiva original que operava dois trimestres antes de sua chegada, apenas um membro permaneceu.

A estrutura de incentivos reflete essa agressividade. Nejatian solicitou um salário de um dólar, atrelando sua remuneração a opções baseadas em performance (PSUs), que não possuem valor caso as ações operem abaixo de determinados patamares. O executivo critica abertamente o modelo de unidades de ações restritas (RSUs), argumentando que ele incentiva gestores profissionais a prolongar o declínio de empresas em vez de buscar a ruptura necessária.

Para sustentar essa operação, Nejatian descarta o trimestre como uma métrica útil de avaliação. Ele opera sob duas janelas temporais estritas: a semana, essencial para validação e entrega de software, e a década, necessária para o amadurecimento de safras de clientes. Para contexto editorial, a BrazilValley aponta que o mercado público americano historicamente penaliza visões de longo prazo em favor de previsibilidade trimestral, o que torna a governança imposta na Opendoor uma anomalia em empresas listadas.

Derivadas primárias e o abandono de rotas

A disciplina de focar no que gera valor real exige o descarte rápido de apostas estratégicas falhas. Nejatian cita sua experiência na Shopify, onde assumiu a operação de logística da empresa. Após a companhia investir na aquisição de armazéns para competir fisicamente no e-commerce, o cenário mudou com a evolução de concorrentes como Walmart e DHL. A decisão de vender a divisão de logística e abandonar a operação física levou cerca de três semanas, sem disputas internas, redirecionando o foco da Shopify para o software.

Essa capacidade de correção de rota ancora a teoria de Nejatian de que as empresas mais duradouras da história são construídas sobre as "primeiras derivadas" de seus negócios centrais. Assim como a Union Pacific fez mais dinheiro vendendo terras do que operando trens, e o Google monetiza através de anúncios derivados de buscas, o valor de longo prazo raramente está na infraestrutura inicial, mas nas adjacências que ela habilita.

Na Opendoor, essa busca por alavancagem operacional se traduziu na adoção forçada de inteligência artificial. Após um hackathon interno onde funcionários sem experiência técnica automatizaram suas próprias funções usando ferramentas como Cursor, Nejatian alterou as diretrizes de avaliação da companhia. O sistema de gestão de performance da empresa passou a ter como primeira métrica a capacidade do funcionário de usar IA como padrão em seu trabalho diário.

A trajetória delineada por Nejatian expõe uma fratura no modelo de governança do Vale do Silício. A transição de um mercado otimizado para a expansão contínua para um ambiente de capital restrito exige líderes dispostos a absorver o atrito de decisões impopulares. Ao reescrever os incentivos e forçar a adoção de novas tecnologias como critério de permanência, a Opendoor testa se o pragmatismo brutal de uma refundação privada pode sobreviver ao escrutínio público. O resultado definirá se o "founder mode" é escalável ou apenas um privilégio de fundadores originais.

Fonte · Brazil Valley | Startup