O modelo de crescimento chinês do século XXI foi construído sobre uma premissa simples e brutalmente eficaz: manter o yuan artificialmente barato, subsidiar a indústria exportadora e acumular reservas em dólar enquanto o consumo interno permanecia reprimido. Esse arranjo funcionou por décadas, transformando a China na segunda maior economia do mundo e no principal fornecedor global de manufaturados. O problema é que modelos baseados em desequilíbrio estrutural têm prazo de validade — e os sinais de esgotamento são cada vez mais difíceis de ignorar.
A lógica do desequilíbrio cambial
A manipulação do yuan não é segredo diplomático: o próprio Índice Big Mac do The Economist — proxy informal de paridade de poder de compra — registra sistematicamente o renminbi como subvalorizado em relação ao dólar. O mecanismo é relativamente direto: ao manter o câmbio deprimido, Pequim transfere renda das famílias chinesas (que importam produtos mais caros em moeda local) para as empresas exportadoras, que competem com vantagem artificial nos mercados externos. É uma forma de subsídio disfarçado de política monetária.
Esse desequilíbrio tem contrapartida no lado americano. O dólar, na condição de moeda de reserva global — o chamado "privilégio exorbitante" cunhado pelo ex-ministro francês Valéry Giscard d'Estaing nos anos 1960 — permite aos Estados Unidos financiar déficits comerciais crônicos emitindo dívida que o resto do mundo absorve voluntariamente. China e EUA, nesse sentido, são parceiros num desequilíbrio mútuo: Pequim financia o consumo americano, Washington fornece o mercado que sustenta a indústria chinesa. O G7 e o FMI discutem esse arranjo há décadas sem resolução estrutural.
O ponto de inflexão é que a demanda externa — especialmente americana e europeia — não consegue mais absorver o volume crescente de exportações chinesas sem gerar fricção política. As tarifas de Trump em 2018-2019 e a escalada protecionista subsequente são sintomas, não causas.
O que a valorização do yuan implica
Se Pequim for forçada — por pressão externa ou por necessidade interna — a valorizar o renminbi e reorientar o crescimento para o consumo doméstico, as consequências para a economia global são não triviais. Produtos chineses ficam mais caros nas prateleiras americanas, europeias e brasileiras. A deflação exportada pela China — que durante anos ajudou a conter a inflação nos países importadores — se reverte. Bancos centrais em economias emergentes, incluindo o Brasil, teriam de recalibrar suas projeções de inflação com um componente externo que hoje opera como amortecedor.
Para o Brasil, a exposição é dupla. O país é fornecedor de commodities para a China — soja, minério de ferro, petróleo — e ao mesmo tempo concorre com manufaturados chineses no mercado doméstico e em terceiros mercados. Uma China com consumo interno mais robusto poderia ampliar a demanda por commodities brasileiras, benefício real. Mas uma China com câmbio mais forte também significa manufaturados menos competitivos, o que alivia a pressão sobre a indústria nacional — efeito ambíguo, dado que a desindustrialização brasileira tem causas estruturais que vão além da concorrência chinesa.
O que permanece sem resposta clara é a velocidade e a voluntariedade do ajuste. Pequim tem histórico de resistir a pressões externas por valorização cambial — o episódio do Plaza Accord de 1985, que forçou a valorização do yen japonês e contribuiu para a estagnação da década seguinte no Japão, é referência permanente nos cálculos estratégicos chineses. Se o ajuste vier, a China prefere que seja nos seus próprios termos e no seu próprio ritmo. O mundo, por ora, não tem como garantir nem uma coisa nem outra.
Fonte · The Frontier | Technology




